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Elas não têm com quem contar a não ser com as minhas mãos, com essas palmas lisas de esfregar roupa, ariar panela, carregar tinas, baldes, bacias, capinar terreiro, depenar galinha. Tenho gosto por lavar roupa, por revolver a terra e por tudo o que as minhas mãos apanham, vai ver por isso deus me deu o conhecimento, a clareza para fazer pelas comadres o que ninguém faz. Ainda que me falte instrução, e que a inteligência para os livros me seja curta, quase nenhuma, há coisas que sei. Há coisas que sei muito bem. O jeito com que se achega ao mato para catar erva de são João, catinga de mulata, folha de algodoeiro, isso eu sei. Como sei escutar os suspiros das comadres, as palavras de cansaço, os gritos delas nos descampados. Aqui nessas distâncias, as mulheres falamos com os passarinhos, com os bois, com as porcas, bichos de curral. As pessoas estão muito longe; à casa mais próxima não se chega sem caminhar um bocado, sem atravessar pedra, pó e estrada. Mas, quando as comadres chamam, eu vou. Não tem explicação, é uma quentura que sinto por dentro, bem aqui, na altura do peito. A vó dizia que o nome da quentura era missão. Essa foi a missão dela. E é a minha.

A Virgem Maria se alegra com as peregrinas.

A comadre Vitória se casou muito cedo, quase menina, e espera pela décima terceira cria no fundão do mato, lá atrás dos morros. A vó apanhou os primeiros, eu apanhei os mais moços, todos meninos, esquálido exército no fim do mundo. Os filhos, quase todos vivos, permanecem em torno do pai, tratam com ele da roça. São calados, têm olhos miúdos e vesgos, consumidos por uma tristeza que perpassa a todos naquela casa. O marido não gosta de mim, como não gostava da minha vó, a quem responsabiliza por uma sopa que a Vitória aprontou anos atrás e que lhe causou vômitos e diarreias. A vó nunca confirmou a parte dela nesse ardil, mas também nunca negou. O marido da Vitória andou dizendo que a vó aparava criança como desculpa para entrar nas casas e enfiar rebeldias nas cabeças das mulheres. Depois que a vó morreu, passou a dizer isso de mim. Já até me ameaçou com espingarda, o lombriguento. Eu estava levando uma canja de galinha gorda para a comadre em um dos seus muitos resguardos, numa panelinha morna enrolada em pano de prato branco, e ele não me deixou entrar, não me deixou vê-la. Da porta do casebre, apontou para mim a arma, disse coisas feias, inclusive da vó. Mas não me abalo com birra de homem. Chamei um dos filhos crescidos que capinava ao lado da casa, entreguei para ele a canja e lhe fiz a benção. O marido da Vitória deu um tiro para cima, as folhas nas árvores se agitaram com a fuga dos passarinhos, o fundão do mato ficou mudo. Eu ri.

O Espírito Santo me investe de armas divinas.

Se a Vitória gritar nesse profundo, não há quem socorra. E é no silêncio desse nosso canto que o marido se fia e faz maldades com ela, com os filhos, com os cachorros, com o cavalinho. Mas eu sou ouvido e mão, perna e boca, peito e pulmão. Não abandono minhas comadres nas dores, sejam as de vida, sejam as de morte. Sei que é meu dever socorrê-las nas necessidades. Apanhar criança, cuidar de mulher parida é um encargo que recebi sem saber a razão, é uma força que me empurra e, ainda que eu quisesse, não conseguiria fechar os olhos. A Vitória deve estar de cinco meses e preciso saber como está a barriga. Não posso largar a pobre no deserto, ao menos isso tenho de fazer por ela. Bom mesmo seria que o homem não estivesse na casa em hora de minha visita, mas haverá jeito? Desconfio que a vó tenha dado alguma erva de purga para a Vitória botar na sopa do demônio, eu soube que ele teve uma diarreia sanguinolenta das piores. Toda erva tanto pode ser um remédio muito bom quanto um veneno muito bravo, a diferença está na sabedoria de quem maneja.

O Deus-Pai me deu um grande coração.

O marido da Vitória diz que nenhuma curiosa presta. É verdade que essa não é uma opinião só dele, mas a maioria sabe que existem situações que ninguém mais resolve. Hoje mesmo apareceu essa moça da vila, pela hora do almoço. Entrou acanhada e ficou parada no batente. Fiquei olhando para aquele rosto pipocado de espinhas, para as mãos unidas em frente ao corpo, na altura do ventre, as unhas dos pés pintadas e descascadas apontando para fora da sandália, os joelhos tortos. Não precisou que ela dissesse palavra nem que eu perguntasse nada — as moças da vila raramente querem de mim outra coisa. Para todo o resto, elas têm os doutores, mas, para barriga indesejada, arrumam carona com alguma amiga discreta e mais vivida, escarafuncham pelos cerrados e me encontram no inabitado, nesta casinha de meia-água e chão batido. Preferia que ela viesse por outro motivo. Gosto de barriga grande, redonda, cheia feito açude em época de chuva. Gosto de barriga de mulher gorda, que é naturalmente forte e larga. Mas, no fundo, gosto de qualquer barriga. Aos doze anos, eu já sabia palpar criança, endireitar o que fosse preciso endireitar e conversar com a santa. Ô, minha nossa senhora, desata logo esse nó! Tinha de ter atado antes, quando era donzela, agora não precisa! Falo bobagens assim quando quero que a mulher ria, que se despreocupe, para a barriga amolecer, mas a minha vó não gostava nada desses meus brinquedos e por isso dizia que eu não estava pronta para apanhar criança. Coitada da vó, não sabia que nasci pronta. A primeira vez foi no quintal de casa, quando as contrações da minha mãe começaram. Faltavam dois meses para a criança nascer, mas Tião, meu irmão caçula, tinha pressa de ver a luz. E viu: escorregou para as minhas mãos antes do almoço, enquanto eu me ajoelhava na terra vermelha do nosso chão. Depois de Tião, vieram muitos. De vez em quando, alguma criança não vingava e acabei me acostumando com a ideia de que nem todas as almas estão destinadas a respirar o ar dos pecadores. E aprendi a lançar mão de conhecimentos antigos, conhecimentos que a vó me passou em segredo. Mandei que a moça tomasse assento e perguntei se estava decidida, porque tem feito que ninguém desfaz e depois não adianta sofrer arrependimento. A moça disse que sentia vergonha, mas me pareceu decidida e entreguei o remédio que procurava. Não me dá gosto essa parte da missão, mas, tendo eu o conhecimento, como posso dizer não?

Os anjos das asas de fogo me sopram conselhos.

Há mulher que não quer. Mas há muita mulher que quer e deus não concede. Outras vezes, ele concede e depois tira. São propósitos que não ouso compreender. Quando estou diante de uma mulher que sofre, pego com ela e rezo uma salve rainha. Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa. Sinto no fundo de mim a força dessa reza. Eu, que caminho por longas estradas, que perco as vistas nos morros, penso nas vidas que se movem na paisagem, nas dificuldades que elas passam, todas elas, e continuo a rezar, repetindo as palavras muito gastas da reza. Um pouco sem jeito, a moça da vila rezou comigo.

Sou gente, às vezes minha fé balança, mas a virgem me acende como a uma lamparina rebentando de luz e calor. Nutrida dessa fé, visitarei comadre Vitória antes do entardecer. No quinto mês, palpo a barriga e, havendo necessidade, endireito a criança dentro da mãe, assunto que o bronco do marido não entende. Mas eu vou. Ah, se vou! O povo da vila só aparece nesses ermos quando precisa da sabedoria dos antigos, não faz nada por nós, não nos ajuda em necessidade alguma. Os dias passam sem que ninguém se lembre que ainda estamos aqui, fomos esquecidas. Não fosse a virgem, já teríamos desaparecido. É por isso que não abandono as comadres, sou o único socorro no fundão do mato. Dizem que deus é amor, mas deus é ira também e, qualquer dia, acerta aquele miserável. A mim, caberá somente levar a erva brava, para a ocasião em que a comadre Vitória tenha coragem de lhe fazer uso.

E depois deste desterro,

Virgem Santa,

deste desatino,

tenha misericórdia dessas suas filhinhas,

e mostrai-nos o caminho.

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