Pós-escrito ao conto Matxa Ãwa

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Homem avá-canoeiro. Foto: Mario Chimanovitch (1973)

Matxa Ãwa é uma obra de ficção e seus personagens não correspondem a pessoas, fatos ou situações da vida real, embora seja livremente inspirada em circunstâncias que os povos indígenas viveram e vivem no Brasil contemporâneo. A primeira dessas situações se refere ao aumento do número de crianças indígenas em situação de acolhimento institucional entre os povos Kaiowá e Guarani. Eu soube disso a partir de uma reportagem da Tatiane Klein, do Intercept Brasil, de julho de 2018: ‘Esquece seu filho’: o Brasil está tirando crianças indígenas de suas mães e colocando para adoção. Recomendo fortemente que façam essa leitura, para dimensão dos fatos. A outra situação me ocorreu quase por acaso. Tenho pesquisado sobre Goiás, a história, a pré-história, a geografia, a biodiversidade da região e também os povos que a habitam e habitavam. Até que me vi particularmente interessada pelos Avá-Canoeiro, que vivem em dois grupos muito pequenos, remanescentes de uma sucessão de massacres. Há um documentário da TV Brasil que, apesar do título um tanto equivocado, apresenta bem a situação: Tribo avá-canoeiro, a história de um “povo invisível” nas matas do país (2012). Também consultei alguns estudos, como a tese da Dra. Mônica Veloso Borges, defendida no Instituto de Estudos da Linguagem na Unicamp: Aspectos Fonológicos e Morfossintáticos da Língua Avá-Canoeiro (Tupi-Guarani). E, principalmente, recorri à tese do Dr. Christian Teófilo da Silva, defendida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília: Cativando Maira — a sobrevivência avá-canoeiro no Alto Tocantins. É claro que só isso não me faz entendedora desse povo e de sua cultura, mas tive um vislumbre, um brilho fugaz que captei para escrever o conto Matxa Awã.

Hoje, no Brasil, toda a população indígena se encontra em altíssimo risco e vulnerabilidade, sobretudo quando temos na Funai, comandando o setor responsável pelos indígenas isolados, uma figura execranda como o pastor Ricardo Lopes Dias, que desavergonhadamente cumpre a missão de evangelizar (e assim exterminar por aniquilação cultural) os povos originários. O que essa gente quer não é e nunca foi salvar para Cristo, mas desocupar a floresta para queimar e fazer pasto, para plantar soja, para envenenar a terra e os rios a troco de um negócio que beneficia meia dúzia de reis do gado. Mas o risco e a vulnerabilidade dos indígenas vêm de antes e não foi melhor em governos anteriores. Será duro para alguns admitir, mas Belo Monte é a prova do apreço que o governo petista, por exemplo, dirigiu aos indígenas. Em 2016, durante o processo de impeachment, recebemos a visita de Victoria Tauli-Corpuz, relatora especial das Nações Unidas sobre os direitos desses povos. À época, escrevi um breve artigo sobre o assunto: Uma nação invisível — Alerta da ONU sobre povos indígenas é ignorado pela imprensa brasileira. A relatora esteve em Brasília, Mato Grosso do Sul, Bahia e Pará. Tauli-Corpuz concluiu que os riscos então enfrentados pelos indígenas nunca haviam sido tão presentes desde a adoção da Constituição de 1988. No relatório, ela afirmou que, em oito anos, “houve retrocessos extremamente preocupantes na proteção dos direitos dos povos indígenas, uma tendência que continuará a se agravar caso não sejam tomadas medidas decisivas por parte do governo para revertê-la”. Tauli-Corpuz veio ao Brasil pouco depois de um bebê Kaingang morrer nos braços de sua mãe, degolado por um homem em uma rodoviária de Santa Catarina.

Não dá para dizer que houve, na história da República brasileira, um único governo comprometido com os indígenas, embora a franqueza genocida do atual presidente sobressaia às porcarias feitas pelos demais. A coisa é tão escancarada que o presidente nega ter obrigação de fornecer água, material de higiene e leito hospitalar às populações indígenas em plena pandemia de Covid-19. E é daí para pior. Passou da hora de os indígenas serem levados a sério e nós, como membros da sociedade humana, devemos nos mobilizar para que isso aconteça. Por fim, deixo um vídeo do Ailton Krenak, em que ele, ainda muito jovem, apela à Constituinte de 1988. É bonito, mas triste de se ver; vinte e sete anos se passaram e a luta mal começou. Boas leituras.

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