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O galo de penas azuis é o que se levanta mais cedo. Sobe a uma pedra no quintal quando ainda é noite e chama pelo primeiro borrão de luz, olhando sempre para leste porque sabe, dentro dele e desde sempre, que os dias germinam naquela beirada do mundo. Tia Dita se ergue da cama e põe os pés descalços no chão à cata dos chinelos assim que o galo de penas azuis inicia o chamado. Faz isso de modo invariável, diariamente. Assim ela o fez também com o pai deste galo, e com o avô dele, e com outros galos que viveram neste terreiro. Depois de se levantar, de passar as mãos pelo arrepio dos cabelos e de vestir um blusão puído, caminha até a cisterna para buscar água. Todas as manhãs, tia Dita volta para a cozinha com a lata de alumínio, ignorando a torneira e a pia, essas facilidades, para verter no bule amassado um pouco da água da cisterna. Acende o fogo, pega o pote de café, o de açúcar, gosta de tudo muito doce, e prepara a bebida. Enquanto o café apura, vai ao banheiro e acorda o pente amarelo que dorme no canto da pia. Penteia os cabelos brancos e crespos, puxando-os para trás até conseguir prendê-los, as palmas das mãos muito claras e todo o resto do corpo reluzindo, escuro e liso, como a pele das jabuticabas. O espelho que tem é pequeno, cabe só o rosto na moldura de plástico, o suficiente para tirar as remelas dos olhos e sorrir, ver se os dentes estão no lugar, se as rugas são as mesmas, se cresceram pelos, verrugas, e de vez em quando há algo novo na sua velhice. Mas hoje tia Dita está se achando igualzinha ao que costuma ser.

Vai ao quintal e dá de comer ao galo de penas azuis, às galinhas e à marreca. Joga na horta um pouco da água que buscou, cata um maço de folha para mais tarde, para o almoço. Volta à cozinha, coa o café e serve no copo de vidro. O pão dormido é requentado no vapor d’água para ficar macio e ganha uma camada grossa de margarina. Sentada à mesa, vê o domingo clarear pela janela, ouve o galo de penas azuis e mastiga com calma. O galo é animal de palavra, diz em voz alta, antes de virar o último gole de café. Às seis, começa a se aprumar para a missa com as melhores roupas que tem: um conjunto de linho, um par de meias ¾, sapatos pretos de fivela, surrados, mas muito limpos, e um blusão de frio. Antes de fechar os botões da gola, empurra para dentro da roupa o escapulário de barbante. Com a bolsa no ombro, para ao lado da porta, diante da mesinha onde estão seus santos de gesso. A virgem Maria parece gigante perto do santo Antônio, que jaz pequenino sem um pedaço da cabeça. Ao redor dos santos, há um terço azul, também de plástico. Dita enrola esse terço na mão direita, pega uma vela, a caixa de fósforos, acende e reza entre os dentes. O lume resvala sobre o chão vermelho, fazendo brilhar a cera que ela ainda esfrega com afinco. Depois faz o sinal da cruz, enfia a sombrinha embaixo do braço e sai.

Para chegar à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, pisa primeiro o barro, depois o asfalto carcomido, depois os paralelepípedos, a escadaria, se equilibra, quase dança, os sapatos são bonitos, mas machucam um pouco. No Largo, encontra os rostos de costume, aperta mãos, sorri com a calma das manhãs. Não conversa porque o sino anuncia que é hora de entrar. Tia Dita se persigna vendo os que se acomodam à frente, os mesmos, os que lá se sentam há gerações, como se aqueles bancos lhes pertencessem, e talvez pertençam, já que alguns têm gravados os seus nomes de família. Ninguém toma os assentos deles, embora não haja qualquer determinação nesse sentido. Ela se senta atrás, junto aos que lhes são mais semelhantes. Não é que se revolte, mas pensa que agora que a vista falha poderia sentar-se mais à frente.

Tia Dita fecha os olhos e medita, agarrada ao terço. Alguém toca um pequeno sino, ela abre os olhos, vê o dono do mercado ao microfone, ele anuncia o tema da missa. O dono do mercado, desde que alcançou uma graça qualquer que tinha a ver com seus negócios, nunca abriu mão de ser comentarista desta igreja. Quando começa o canto de entrada acompanhado por um violão de cordas frouxas, a tia Dita e os demais se levantam. Pelo corredor central da igreja, entram o padre e os ministros. O padre é um italiano que tem o nariz roxo em forma de bago e uma barriga protuberante que atrapalha a genuflexão e o beijo no altar. Dita gosta de ver a disposição desse homem tão branco em dias assim, em dias de sol, que certamente lhes são os mais difíceis. Logo cedo, já tem as faces coradas, a respiração ofegante, a fronte úmida. Sente simpatia pelo padre que veio de longe, apieda-se de seu exílio, admira-o: Eis um homem santíssimo.

A tia Dita senta e levanta, canta, reza, comunga, abre a bolsa, remexe lá dentro e coloca no ofertório uma nota de dois reais, dá e recebe a paz de Cristo. Finda a missa, fica mais um pouco na igreja para rodar um terço à virgem junto com outras mulheres. Antes de ir embora, se vira uma última vez para o altar, faz o sinal da cruz e admira por um instante o mistério das imagens de gesso. Começa a fazer o caminho de volta para casa, quando um cachorro doente a reconhece. O cachorro não tem mais pelos, está tão coberto de sarna, bicheira e pelanca que já nem parece cachorro, mas uma espécie de duende. Apesar da aparência frágil, marcha em uníssono com ela. À sombra do abacateiro, em frente à casa, há uma mulher com uma criança de colo. Dita passa a mão pela cabeça da criança, abre a porta, pede à mulher que se acomode em uma cadeira na sala. A vela que deixou acesa acabou e ela acende outra. Vai à geladeira, pega uma panela de angu de milho com miúdos, despeja num potinho de margarina vazio e leva para o cachorro. A vasilha de água que mantém em frente à casa ainda está cheia e nela boiam folhas secas e pedaços de fuligem que tia Dita retira com os dedos. O cachorro come e, depois de lamber o fundo do pote, olha para tia Dita e vai embora.

Agora, sim, ela diz para a mulher e para a criança que a aguardam. Vai ao quintal, pega três ramos de louro, dois de arruda e dois de alecrim. Toma no altar o copinho americano e enche de água, se senta em frente às duas, a criança está inquieta nos braços da mãe, choraminga, quer escapar. Dita pega novamente o tercinho que havia deixado ao lado da vela enquanto providenciava a comida do cachorro e sussurra palavras incompreensíveis, agitando no ar o buquê de ervas. Faz o sinal da cruz com o buquê repetidas vezes e então começa a falar em voz alta: Eu te benzo pelo nome que te puseram na pia, em nome de Deus e da Virgem Maria, e das três pessoas da Santíssima Trindade, eu te benzo, Deus nosso Senhor que te cura, que te acuda nas tuas necessidades, se teu mal é quebranto, mal invejado, olhos atravessados ou qualquer outra enfermidade, Deus Nosso Senhor há de tirar, vem um anjo do céu e deita o mal no fundo do mar, onde não ouça galinha e nem galo a cantar.

A tia Dita inspira fundo e assopra a cabeça da criança. A mãe agradece, parte com a menina modorrenta nos braços. À porta, há mais duas pessoas, uma mulher e um homem que segura um galo. Tia Dita passa a mulher à sala e repete aqueles gestos. Quando termina a benzedura, a mulher retira da bolsa uma caixa de velas e oferece. É a única paga que tia Dita aceita. Depois entra o homem com o galo, explica que a ave está adoentada, pegou gripe em uma noite de chuva; seu galinheiro tem goteiras. Com a ave, Dita não usa as folhas, apenas faz o sinal da cruz no ar e anuncia: As pessoas da Santíssima Trindade querem e podem, de onde este mal veio, ele para lá torne, em nome do Santíssimo Sacramento, o teu mal saia para fora e o bem entre para dentro. O homem agradece e parte com o bicho debaixo do braço. Da porta, tia Dita olha para a rua, espera. Só vai mexer com o almoço depois que acabar. Assiste às crianças que correm descalças no barro, às pipas que competem com as nuvens, às paredes sem reboco, aos cabos de energia, às calçadas mal varridas, cheias de seriguelas vermelhas apodrecendo. Espera, mas apenas os pequenos sobem e descem a ruazinha, aos pulos, aos gritos. Hoje parece que não vem mais ninguém. É assim em dia de missa, tem menos gente precisada. Em todo caso, deixa a porta da casa aberta.

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