pós-escrito ao conto Amanaçu

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Região onde imagino Buriti Pequeno, cenário dos treze contos de Amanaçu

Eu precisava escrever um livro que se passasse em Goiás. Sentia-me inspirada pela Galveias de José Luís Peixoto, pelo hospício de Maura Lopes Cançado, pelas Vilaboinha e Vila Marta de Sheyla Smanioto — o lugar dos meus contos deveria ser tão eloquente quanto uma personagem. E embora as narrativas se localizem em um ponto do mapa, esse ponto na verdade não existe. Buriti Pequeno é invenção minha e o conto ‘carne de paca’, uma apresentação ao universo que criei. Joaquim é o personagem que nos permite conhecer um pouco da cidade e um pouco do campo, assim como algumas mudanças pelas quais a região tem passado.

Geograficamente, Buriti Pequeno está próximo à divisa de Goiás com a Bahia, pelos lados de Mambaí, município que visitei em 2018. Quando conheci aquele canto, saturado de cavernas por onde as águas correm em segredo, soube que ambientaria meu livro por lá. Em Mambaí, participei da folia de reis mais singela e embriagada de que se tem notícia. Além disso, a absoluta ausência de hotéis, restaurantes e lojinhas de lembranças evocava o cenário perfeito para as minhas histórias. Inclusive foi do povo de Mambaí que tomei emprestado esse anseio pelas benesses do turismo, anseio que vemos na vendedora de fumo do conto. Um anseio inocente, ignorante do preço dessas mesmas benesses. Mas faltava à Mambaí algo fundamental para o livro que eu pretendia escrever: um rio que atravessasse a cidade, como acontece em tantas vilas goianas.

O rio, e acredito que isso ficará evidente ao fim da leitura de Amanaçu, é central para as treze histórias. Ainda que sua presença seja discreta em alguns dos contos, quase ausente, ele é a força que no meu processo criativo embala as narrativas. Para mim, o espírito de Buriti Pequeno é Amanaçu. Não sei se você já parou para pensar no quão magnífica é a existência de um rio, no quão poderosa, a sua passagem. E no quanto é insensato que um rio, com todas as suas riquezas, com todos os seus peixes, pedras e cheias, esteja sujeito aos malfeitos da gente. Amanaçu é como o Rio das Almas, de Pirenópolis, ou como o Rio Vermelho, de Cora Coralina:

Rio, meu pobre Jó…

Cumprindo sua dura sina.

Apiedo-me muito dos rios. Maria Lenk, primeira mulher a usar o nado borboleta em competições, aprendeu a nadar com o pai, no Tietê. Em 1944, Elisabeth Huttenlocher venceu a Travessia de São Paulo, nadando 5.500 metros, também no Tietê. Até outro dia nadava-se em todos os rios do mundo e eu, que gosto tanto de nadar, lamento não ter presenciado esses tempos. Agora não há o que nos aguarde nas correntezas do Tietê, nada além de hepatite, leptospirose e febre tifoide. Um bicho, quando gravemente ferido, estaca, congela, morre. Mas os rios, mesmo semimortos, continuam em movimento, nunca param, correm e correm, indiferentes ao fato de lhes darmos as costas. É que os rios vivem tempos geológicos, têm outras paciências. E se alcancei êxito nas minhas tentativas de escrever algo que tivesse a cadência de um rio, talvez Amanaçu faça sentido, talvez Amanaçu seja um devir.

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