#4 — ranchão, ranchinho

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Chico Pereira segura as rédeas enquanto caminha ao lado do cavalo. Estala os beiços para chamar e guiar o animal muito dócil pelo terreno. Com uma vara comprida, catada ao acaso da manhã, dá pancadinhas na anca do bicho, enquanto ouve o som macio das ferraduras amassando o barro mole, enquanto sente o cheiro do capim repisado e úmido, o cheiro das fezes e da palha do milho. Chove fino. Na lama, Chico resvala, mas se agarra ao selote a tempo de evitar a queda. Quando o cavalo chega à altura da morada, Rita faz sinal com os braços para que parem. Juntos, homem e mulher seguram os varais da carroça e atam ao cavalo. Não têm muito a levar, mas qualquer sobejo pode ser excesso para um animal de tanta idade. São três colchões finos, um fogãozinho a gás da marca Dako, um botijão meio cheio, umas panelas, uns pratos de vidro, uma moringa e duas trouxas de roupas atadas com lençóis de algodão. Isso mais as ferramentas e as sacas de milho. Com a carroça pequena e o cavalo velho, terão de fazer duas viagens. As crianças já estão a caminho, acompanhadas do cachorro, e levam sacos com miudezas: artefatos de cozinha, pequenas ferramentas, pedaços de brinquedos, além do violão em que faltam duas cordas. Chico enche a carroça com o que dá e avisa que levará a mulher na segunda viagem; é melhor que ela fique e dê uma olhada ao redor da casa, que perscrute a terra onde ainda ontem plantavam e colhiam, para garantir que não deixam nada para trás. Rita consente, tem mesmo a impressão de que falta algo, pode ser que nunca mais recuperem o que ali esquecerem. Enquanto a carroça se afasta, ela cisca o chão. Tudo o que encontra são cacos sujos de plástico — tampas, pedaços de embalagens, o cabo de uma colher, detritos que se acumularam ao longo dos anos sem que ninguém tenha se dado ao trabalho de recolher. Descrente de encontrar ali algo de serventia, levanta o tronco com dificuldade, as mãos nos quartos, ai, que dor, minha nossa senhora, e ergue a cabeça. Aperta os olhos para enxergar o solo onde antes se esticavam as linhas do milharal. Está nu, exceto por algumas folhas esparsas e pelo monturo de palha ao lado da cisterna. Ao fundo, untados pela chuva, brilham os tinguizeiros, as mutambas e os jatobás. Não se ouve nem se vê um passarinho, há solenidade no silêncio que cerca a casa. Rita passa as mãos pelo rosto, arrasta em direção ao queixo a água fina da chuva.

Pela segunda viagem, sobe à carroça com o marido. Os meninos chegaram? Pergunta sabendo que não é possível que tenham alcançado o ranchinho, que devem estar ainda na descida do morro, mas sente necessidade de dizer alguma coisa. Chico Pereira não responde, sabe que a mulher conhece a resposta. Antes de arrancarem, Rita abraça uma sacola de napa, onde guardou biscoito de água, polvilho, arroz e feijão crus. Com a carroça novamente cheia, Chico grunhe e sacode as rédeas, pondo o cavalo em movimento. As madeiras rangem, as panelas tilintam e os corpos trepidam conforme as ranhuras e as pedras da estrada. A subida é lenta, sacudida. Rita quase olha para trás, mas não tem coragem de ver as paredes caiadas da casinha onde nasceram os filhos, não consegue se despedir daquele pedaço de mundo que por muito foi seu. Aquele tantinho de chão quase sem valia ofereceu alimento, descanso e refúgio à sua gente. Não nega que o solo seja ácido, mas, com trabalho, a terra deu. E o que não plantavam era comprado na vila, um saco de arroz, um de farinha de trigo, sal, margarina… Mas o diabo do marido não pode com o verde fosco do dinheiro. Tinha lá necessidade de vender a terrinha onde viviam? Dar a ele um montinho de notas é como lhe jogar um feitiço. Faz uma semana que não dorme, contando e recontando as cédulas, sonhando em vigília com coisas que vê na cidade e na televisão. De tanto cheirar o dinheiro, Chico até ganhou uma ferida no nariz, um cobreiro. Rita se lembra e aperta a sacola de napa. Resmunga enquanto sacoleja em cima da carroça, a chuvinha a cobrir os fios ásperos dos cabelos e o tecido esgarçado do vestido. Mais adiante, as árvores altas se curvam sobre a estrada, formando um dossel de folhas negras que gotejam sobre suas cabeças. O dorso do cavalo brilha na penumbra em cadência exausta, enquanto suas orelhas tremem ao impacto das gotas mais grossas. Chico rasga o silêncio. Na segunda, você vai comigo pra cidade escolher um sofá. Vendeu a terra para comprar um sofá, uma televisão e uma antena parabólica. E só. Acabou-se o dinheiro. Não percebe que é uma loucura, homem? Rita pensa, mas se cala dessa vez. Já falou demais sobre o que Chico aprontou com a família, essa venda tresloucada. Aperta mais forte a sacola de napa contra o peito e vira o rosto para outro lado; sendo esse o conteúdo da prosa, que fale sozinho.

O outro rancho do Chico Pereira, o ranchinho, herdado de um irmão morto em briga de faca durante a festa do Divino, nunca foi do agrado da mulher. Desde que se casaram, o ranchinho vivia arrendado para o Sebastião da Maroca. Lá eles criavam umas galinhas e plantavam o que desse, conforme a saúde, a ocasião e a época do ano. Agora o Sebastião e a Maroca tiveram de procurar outro esteio, a pedido do Chico Pereira. Maroca chegou a comentar que tentaria ocupação na vila, cuidar de casa ou de criança, mas até para isso se percebe que está passada. Assim como Chico e Rita, também eles juntaram seus pertences em farnéis e partiram. A diferença era que não tinham cavalo, puxavam eles mesmos a carroça, sem destino certo. Agora é rezar, não é, dona Rita? E assim se despediram. Nem a coluna torta do velho, um S perfeito formando uma corcova entre as omoplatas, comoveu Chico Pereira. Tinha urgência no negócio, queria tudo sem atraso, os compradores do ranchão eram sérios, gente de papel passado. No cartório, Chico Pereira examinou a papelada como se tivesse entendimento, segurou a caneta do escrivão para desenhar a assinatura nas bordas das folhas e apertou com gosto as mãos daqueles homens ensaboados. Ao contrário de Rita, que deixou o cartório choramingando. Você não tem dó desses desgraçados, Chico? Quem vai dar serviço a um entrevado? De cima da carroça, é sua tentativa derradeira de dissuadir o marido. Como pode desabrigar a Maroca e o Sebastião, deixá-los soltos no mundo, já tão velhos e doentes? Mas Chico Pereira se aperta em silêncio, acha que ela não está preocupada com os rendeiros, só não quer morar atrás dos morros. Rita nunca gostou de chegar ao ranchinho nem para fazer visita, morre de medo do fundão do mato. Mulher, o ranchinho é meu por direito, eu e meu irmão tomamos essas terras na marra e não vou dar de presente pro Sebastião. Com o beiço pendurado, Rita ergue os ombros: se dá tanto valor às terras que conquistou, por que vendeu o ranchão bom onde a gente morava? Chico se impacienta, bate com a vara no lombo do cavalo, que dá dois trotes rápidos e volta em seguida ao cansaço de antes. Ô, Rita, o Sebastião nasceu e vai morrer rendeiro, não percebe que o velho é preguiçoso? Rita, ainda agarrada à sacola de napa, chacoalhando na subida vagarosa, discorda. O Sebastião foi sempre trabalhador, só chegou tarde, quando já não tinha mais um pedacinho de terra pra se assentar com a Maroca, Chico. Ele dá com a vara no cavalo. Pois então azar o do Sebastião da Maroca.

Quando começam a descida, diminuem a marcha por causa de uns porcos que atravancam a estrada, mas os bichos logo abrem caminho e a carroça avança sobre o piseiro. Pelos lados do Morro da Fátima, parou de chover. Um anu-preto surge na copa do saputá, sozinho e calado, como não costumam fazer os anus-pretos, e Rita vê nisso mau agouro. Se lembra que Maroca falou da alma de um negro que assombra o casebre do ranchinho. Disse que esse negro faz cair as panelas na cozinha, venta nos quartos, apaga as velas dos santos, principalmente nos dias consagrados. Maroca ouviu dizer que esse negro morreu no fundão do mato há muitos anos, arrastado no chão por um cavalo, castigo por fugir da fazenda onde era cativo. Maroca jurou em nome da alma da própria mãe que viu o negro duas vezes, uma no milharal e outra dentro de casa, ao lado do filtro de barro. Para Rita, é o de menos. Piores as onças, feras em carne e osso que vivem por aquelas bandas. Sorrateiras, entram nos ranchos de madrugada e matam os cachorros, adoram comer carne de cachorro, e depois largam as tripas e o sangue, a carcaça e o terror espalhados pelo terreiro. E há os índios. Não podem ver uma tampa de panela, um pedaço de lata que pegam para fazer ponta de flecha. Há anos, roubaram as sacas de arroz do Sebastião, só que esvaziaram tudo no paiol, levaram apenas as sacas vazias, que não valem nada. Desde que acabaram com a aldeia deles na Mata do Café, os que sobraram vagam por aí, sem rumo. E se um aparecer quando ela estiver sozinha? E se uma onça esquartejar e devorar o cachorrinho? E se tocarem fogo na lavoura? Maroca disse que os fazendeiros andam aprontando dessas, para comprar as terrinhas dos pobres a preço de banana. O fundão da serra não presta, está cheio de fantasmas e onças, misérias e perigos, Rita não se cansa de repetir mesmo sabendo que a carroça está para chegar e que Chico não vai lhe dar ouvidos.

O ranchão ficou para trás. De onde está, Rita não consegue ver o vale, a fumaça que sobe dos fogões à lenha às onze horas, as casinhas de barro, os trilheiros, as espigas de milho. Estica o pescoço e vê apenas eucaliptos plantados junto à sede de uma fazenda rica, campos sem fim e sem cor, lavrados por uma máquina amarela que anda em zigue-zague. Fazia tempo que Rita não vinha por esses lados, não sabia que ali já se encontravam tamanhas solidões. A sacola de napa está besuntada de suor e ela decide largá-la junto a outros cacarecos na carroça. Passa as mãos pelos fios eriçados do cabelo, ajeita o decote do vestido e respira fundo, fundo. Pensa nos irmãos que compraram o ranchão, não é gente que trabalha com lavoura. Estudados, moços, sem filhos. Rita não faz ideia do que os levou para lá, sabe apenas que a culpa de sua infelicidade é toda deles. O ranchão pode até não ser grande coisa, mas é melhor que o ranchinho. Como pode valer apenas um sofá, uma televisão e uma antena? Não tem cabimento. Só mesmo a anta do marido para cair em uma conversa tão sem vergonha. Ai, a Rita está que não se aguenta. Sente vontade de descer da carroça e ficar pelo caminho, endoidecer, sair gritando, rasgar a roupa do corpo, cuspir. Mas tenta se convencer de que ao menos os filhos serão felizes, por um tempo; gostam do fundão do mato. Depois crescem e tentam a vida em outro lugar, quem sabe na vila, quem sabe em Goiânia, em Brasília. Só não quer vê-los ali, ao lado dela, perdidos, escondidos feito bichos. Rita respira, respira e toma a sacola de napa novamente nos braços quando sente o cavalo reduzir a marcha.

Atravessam a porteira aberta. Linhas de transmissão de energia cortam o ranchinho de fora a fora e às vezes emitem sons estranhos, fazendo arrepiar os pelos dos braços. Rita escuta, olha para cima, intimidada pelo gigantismo das estruturas de metal. Quando o cavalo estaca, ela intenta descer da carroça, mas algo não está bem. Tomada por uma tontura, deixa que a sacola de napa lhe escape dos braços. Os biscoitos voam, o arroz escorre pela terra, o feijão pipoca nas pedras e uma nuvem de farinha enche o ar. Rita nem vê quando vai de encontro ao chão, apenas o corpo, esse animal, assiste à queda. Mais leve, a farinha cai em seguida e se espalha por todos os lados. Cobertos de branco, Rita e biscoitos se veem reduzidos a farelos. Os filhos, que já aguardavam pelos pais, correm para acudir a mãe. Chico Pereira junta o que sobrou do arroz e do feijão, enfia na sacola de napa e, praguejando, adentra o casebre. Escorada no ombro do menino mais velho, Rita volta aos poucos daquela escuridão. Quando abre os olhos, vê um homem escorado à porta. É preto, limpo, reluzente, com o peito coberto de cicatrizes grossas. Veste uma calça de pano cru e tem os cabelos tão longos que as mexas crespas se espalham por metros e metros, dentro e fora da casa, feito raízes. Embora atordoada pela queda, Rita se surpreende sem medo. E ainda tem tino para constatar, maravilhada, que os cabelos das almas também crescem. Quando pisca, o homem desaparece, restando a porta empenada, coberta de rachaduras, sem verniz ou tinta, completamente nua.

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