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Você diz que é domingo. E domingo é bom porque ganha mais. Muito mais, meu filho? Não, mas é melhor que dia de semana. Pede a benção à mãe, sobe na moto e singra o vermelho da terra deixando a marca dos pneus na lama da estrada. Choveu ontem à noite, mas hoje faz sol, um sol baço, círculo de nata no céu desbotado, encoberto por nuvens de paina. Para todo lado que olha, vê a soja despontando verde e igual. Atravessa a porteira que lhe abrem como se tivesse chegado alguém importante, gosta quando abrem assim a porteira, isso só acontece aos domingos, e estaciona. Perto da recepção, estão seus companheiros, foram juntos em uma moto e esperavam pela sua chegada. Você os cumprimenta com um aceno de cabeça, eles respondem falando do jogo de logo mais, vai passar na televisão, você não tem parabólica, ouve pelo rádio, mas está bom, prefere assim, porque no rádio o que conta é o futebol mesmo, não tem papo furado, isso lá é verdade, eles concordam, mas gostam de ver os gols. Tomara que o serviço seja rápido, é, tomara. Dá tempo de fumar um cigarro, você puxa duas tragadas e cospe no chão. Fica olhando para a bola de cuspe na terra, ela flutua na terra, é espessa, não se mistura, mas basta empurrar com a ponta da botina um torrão para que ela desapareça. Quando termina de fumar, joga no chão a bituca, está cheio de bitucas em torno da recepção, parece até que deram uma festa. Quase acende outro cigarro, mas o administrador sai de repente de uma porta de vidro e acena, com os óculos escuros metidos no alto da cabeça. Não é igual a vocês. A pele, o cinto, os óculos, o branco da camisa, tudo nele brilha. Só os sapatos estão embaciados, cobertos por uma fina camada de poeira. O que é para fazer, doutor? O que vocês acham? Desentupir, porra!

Choveu demais durante a semana, você sabe. A umidade junta a soja em blocos e os grãos não escoam, entopem os dutos, o silo para de funcionar. Então é preciso subir a montanha de grãos e andar por cima dela, empurrando com as botinas até que os grumos se soltem. Vão os três, você e seus dois companheiros. Você é o primeiro a subir a escada do silo, o primeiro a entrar e a sentir o cheiro tóxico da fermentação, o calor insuportável. Não é fácil respirar aqui dentro, mas os outros estão logo atrás e é reconfortante não estar só. A montanha é gigantesca, quatro mil toneladas de soja, foi o que disseram, enchem mais de cem carretas. As paredes de metal estalam de vez em quando, estão quentes e ninguém quer que o desentupimento seja demorado. Pensa no jogo, não admite, mas queria ter uma parabólica para ver os gols assim como os outros. Quem sabe trabalhando muitos domingos? Precisará beber menos, sair menos com os amigos, evitar os passeios às margens do rio. Ainda se desse para tomar banho, mas você só fica lá, na beira, enquanto gasta dinheiro com cigarro, petisco e bebida. A mãe já disse que essa vida não tem futuro, que é preciso trabalhar sem descanso, mas será necessário tanto? Em ritmo compassado, pisa o chão de grãos tão duros, como podem ser macios no conjunto é coisa que não se explica, e pisa. Pensa nos índios que viu uma vez na aldeia, dançavam pisando assim enquanto tocavam flautas, talvez não fossem flautas, você não entende de índios, só sabe que eles pisavam a terra e tocavam dominados por uma força que fazia o chão tremer. Quase todo mundo tem medo dos índios, dizem que são perigosos, sobretudo quando armados de arco e flecha. Mas você não tem medo de ninguém. Inclusive contam que sua bisavó era uma índia da cara preta, nunca batizada, porque detestava igreja. Mas melhor não pensar em bisavó, índios, danças, flautas, arcos, flechas, essas bobagens. É a soja que importa. Por um instante, se lembra das plaquinhas com informações do cultivo que viu na beira da estrada, variedade CP4 EPSPS, muito embora você não saiba o que isso significa. É coisa do dono da fazenda. Conforme pisa, os blocos aos poucos vão se desprendendo, os grãos voltam a correr uns sobre os outros. Feito correntes de água, fluem. Um mar de soja.

Você olha para o lado, cordas de suor saem de sua testa e pingam sobre a montanha, os outros dois também suam, fazem uma piada qualquer, riem. E é nesse instante, nesse átimo de riso, que os grãos desaparecem sob seus pés. Não, não são os grãos que desaparecem. É você que afunda, submerge no mar de soja feito um palito, só a cabeça fica de fora. Quando se dá conta do que está acontecendo, grita, se debate, procura um ponto de apoio para os pés e não encontra. Os grãos são muito pesados. Os dois companheiros acorrem em sua direção, tentam agarrá-lo por baixo dos braços, tentam puxá-lo pela cabeça, tentam de tudo. Os olhos deles são de desespero, de uma vontade imensa de tirá-lo dessa situação, mas como? Correm risco de afundar também. Às pressas, eles se encaminham para a saída do silo, gritam por socorro. Agora você ficou sozinho aqui dentro. Com o cheiro mortiço da fermentação muito perto das narinas, pensa que acabou. Mas calma. O pé direito, isso, o pé direito encontra um pequeníssimo ponto de apoio. É a marca da solda na parede do silo. Nela, você concentra toda a energia para manter o corpo à flor dos grãos. Tudo dói, principalmente o peito. A soja esmaga. Onde estão eles que não voltam? Socorro! Você grita para ninguém.

Mas eles voltam, sim. São seus companheiros, não fariam a maldade de abandoná-lo. Você só não sabe quanto tempo se passou, sua cabeça está mole e já não raciocina direito. São muitas as pessoas que se reúnem dentro do silo neste instante, embora você mal as reconheça. Vê as cordas pretas e vermelhas com as quais tentam ajudá-lo, uma pá, uma tábua, objetos que não surtem efeito. A alguns passos da sua cabeça, uma onda de grãos com dez metros de altura se ergue recostada à parede do silo. Parece uma fotografia, a onda inerte, estacionada. Se deslizar, talvez todos que ali tentam socorrê-lo também morram e isso faz com que você aperte os olhos, mas é impossível chorar; os pulmões espremidos pela soja não permitem tanto. Então você chora por dentro, um choro implosivo, que se desfaz em secreções excretadas e prontamente engolidas. Justo você, que nunca viu o oceano, vai morrer em um mar seco. Tinha vontade de ver o mar, saber como é o gosto da água salgada, o jeito das ondas, os bichos que vivem dentro, comer os peixes de lá. Terá tempo? As imagens se embaralham: vê a soja rainha, as mãos que prestam socorros inúteis, as paredes metálicas do silo, os fios que sustentam as horas, a sorte. A má sorte. Afundar é algo que acontece, mas com você? Por instantes, pensa em rezar e não consegue. Não faz nada além de suster com dificuldade o calcanhar direito no calombo da solda. Se o pé escorregar, é certo que tudo afunde, tudo. Tenta manter com deus alguma relação, mas faltam a fé e os demais requisitos. Arranca do peito uma nesga de fôlego e pede aos que estão em melhor circunstância que orem por você e espera que, no meio desse sufoco, ao menos um atenda ao pedido. Quem sabe deus não se compadece?

Um capataz reza. Recita um versículo, coisa da bíblia, pouca, mas com ares de eficiência. Então um outro que você não conhece aponta para a escada por onde agora descem os bombeiros sob a luz opaca do silo. Eles estão no alto, com seus uniformes e bonés, lanternas e ferramentas, adentrando o universo pardacento da soja. Os bombeiros vieram de longe, não há destacamento em Buriti Pequeno, e são sua única esperança de sair vivo daqui hoje. Eles sabem navegar no mar de soja, diz um homem cujo rosto você não vê. Terá mesmo dito isso? Os empregados da fazenda abrem caminho e dão lugar aos santos bombeiros, que se prendem com cordas às barras da escada. Levam para baixo quatro pranchas vermelhas e o cercam com elas, metem-lhe uma máscara de oxigênio, prometem que dará tudo certo, que hoje você não vai morrer. Mas, após diferentes tentativas de desengate, percebem que você está tão enfiado na massa de grãos que parece fazer parte dela. A soja quer mastigá-lo, engoli-lo, uma reles carne de terceira, o que é irônico porque você nunca provou desses carocinhos, não faz ideia do gosto que têm nem conhece quem os tenha provado. Sabe que os bois comem soja, e você gosta da carne dos bois, mas isso é outra coisa. A soja que derruba a mata e cobre os campos, que dá sustento a tantas máquinas e poucas famílias, a soja, esse ouro verde, é um gigante desconhecido.

O calcanhar escorrega e abandona o ponto de apoio que o manteve por mais de três horas, mas agora você está amarrado, não vai afundar. A máscara de oxigênio traz alívio, e também uma participação maior, mais lucidez, e você começa a distinguir os rostos, as vozes, os nomes e os tipos sanguíneos bordados nos bolsos dos macacões: O+, O-, AB+. Os bombeiros, a cada movimento mais firme, se viram para a onda de soja, olham para ela como se fizessem uma súplica, por favor, não acorde, não nos mate nesta tarde de domingo. De repente, param o que estão fazendo. O homem mais alto, aquele que parece ser o capitão, sobe as escadas e deixa o silo. Terão desistido? Demora muito, demora minutos infinitos, e volta resoluto. Vamos abrir a parede. Você não sabe, mas abrir a parede de um silo, fazer um furo nela, não é fato qualquer. Estragarão o silo, a soja escorrerá para a terra, são perdas que patrão nenhum deseja. O administrador, relutante, ouviu os argumentos — é imperial reduzir a pressão sobre seu corpo ou não poderão retirá-lo com vida — e a autorização saiu assim, a contragosto, mas saiu. Retumbam sons no metal, estão tirando medidas do lado de fora, os bombeiros precisam ser ágeis e cuidadosos. Os gases naturais da fermentação, quando se encontram com as faíscas, podem jogar tudo pelos ares. E bum! Lá se vai o silo tão caro, a vida tão pequena, os bombeiros, os grãozinhos, e começa uma chateação para o dono da soja.

Até que chega a paz. Uma paz em desacordo com o relinchar da máquina hidráulica que se choca contra o metal, uma paz estranha, desencontrada dos bombeiros suarentos e ofegantes que o cercam. Mas tudo bem. O oxigênio entra manso nos pulmões, traz sono, conforto, lassidão. Passa pela sua cabeça que talvez você esteja morrendo. Será? Não pode ser. Morrer é mais difícil. Já viu os bichos que morrem como agonizam, como choram antes mesmo da primeira pancada, a morte é uma sombra que se anuncia, não é esse cansaço, não. Morrer é outra coisa. Você está quase, quase adormecendo, vai morrer? Não, vai só dormir, é muito, muito cansaço, não consegue mais segurar, o oxigênio é uma fumaça verde, os bombeiros planam sobre a montanha, os sons desaparecem. Quando as pálpebras caem, um feixe de luz entra no silo, há gritos e palmas do lado de fora, estão eufóricos, comemoram algo que de início você não compreende. Depressa, os bombeiros empurram os grãos através da abertura na parede, não é uma fissura regular, parece mais uma lata aberta com faca, mas funciona. À medida que a pressão arrefece, você sente que a calça está ensopada de urina, que a roupa toda está colada à pele, que dói cada osso e cada músculo, que aquele corpo estranhamente não é o seu. Você está longe, muito longe, mas olha para os bombeiros com uma gratidão desesperada, e quer rir e chorar, e não cabe mais nada nesse agora. Apenas reconhece seu nome quando dizem: Ezequiel, tá perto de acabar.

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