Image for post
Image for post

A dona Bragança tinha certeza, certeza absoluta, que uns pombinhos na praça do coreto fariam bem à cidade. Pombo é bicho bonito, calado, que não faz algazarra nenhuma, voa e pronto. Não é à toa que tudo quanto é praça de capital tem pombo, Bragança explicava. O problema era o gentio ignorante, que não conhecia sequer a capital de Goiás, uma gente sem cultura, sem dinheiro, uma gente que não tinha nada do que dona Bragança tinha. Riam dela, achavam aquilo uma bobagem, mal sabendo que ela treinava resoluta em frente ao espelho. Cidadãos de Buriti Pequeno, a presença do pombo é indício da civilidade de um povo. Falava como se fosse ela a prefeita e não o marido, que dessa história de pombo andava farto. Todas as grandes capitais da nação, no seu processo civilizatório, introduziram essa ave em seus espaços públicos. Não é possível que Buriti Pequeno seja o único município brasileiro a recusar a presença desses animais que, se não são majestosos como os pavões, apresentam a graça das galinhas d’angola, com a vantagem de serem silenciosos e planarem pelos céus. Criatura de deus, o pombo é uma flor que voa. Tudo isso foi escrito por dona Bragança em um caderno de capa dura que usava para tentar uns poemas. Acreditava ser uma Cora Coralina, porém mais jovem e elegante. Nos últimos dias, usou o caderno para compor o discurso que leria antes da soltura dos pombos azulados que mandara encomendar em Goiânia. Fazia tempo, a ideia dos pombos. Fazia anos. Agora os bichos esperavam na área de serviço, três casais em gaiolas de bambu. Seu marido era dono de milhares de cabeças de gado, então quem a impediria de soltar seis pombos?

O discurso estava pronto. Fechou o caderno sobre a escrivaninha de mogno e foi à área admirar os animais. Pegou um bocadinho de fubá, abriu a portinha de uma das gaiolas e tentou fazer com que comessem à mão. Não deu resultado — talvez estivessem satisfeitos ou, mais provável, com medo da mão cuja proximidade lhes era suspeita. Abanaram asas, se embolaram, arrulharam; não tiveram interesse naquela amizade. Dona Bragança se sentiu ofendida, mas buscou relevar; se deus tivesse dado aos pombos entendimento, certamente seriam mais agradecidos. Botou o fubá no comedouro, fechou a portinha e limpou a mão na saia. Aproximou o rosto da segunda gaiola para ver de perto os olhos dos pombos. Eram olhos marrons avermelhados, inquietos, idiotas, que a fizeram afastar o rosto. No conjunto, assim de longe, somando penas, bicos, pés, unhas e porte, eram animais bonitos. Dona Bragança adorou a coleirinha verde brilhante que eles tinham em volta do pescoço, o gruminho branco sobre o bico, a carninha alaranjada dos pés. Só estranhou os olhos mesmo. Sentiu vontade de tomar um deles nas mãos, de segurá-lo como a um bebê, junto às mamas, mas teve medo de se atrapalhar. Melhor deixar para depois. Não demoraria até que ela própria lançasse cada um daqueles pombos no infinito, que esse gosto não daria a ninguém. O prazer dos outros seria ver, contemplar o farfalhar das asas perfeitas, os corpos subindo, subindo, as silhuetas emolduradas pelo céu azul. Mas botar a mão, não. Nem o marido-prefeito, nem os nove vereadores, nem o padre, não. Ela e só. Estava decidido.

Bragança foi ridicularizada por meia Buriti Pequeno quando falou pela primeira vez nos pombos, na ideia de tê-los na praça, como enfeite e divertimento para o povo. Qual era a necessidade disso? Necessários só mesmo as vacas, os bois, os porcos, as galinhas, os cachorros bravos. O resto não serve para nada, o marido-prefeito foi o primeiro a dizer. Pombo dá leite, Bragança? Pombo bota ovo para fazer uma omelete? Pombo rende bife, couro, farinha de osso? Pombo cuida do quintal, corre ladrão? Tá vendo, Bragança? Pombo é bicho que não presta, ninguém precisa. No pensamento da mulher, o marido não tinha compreensão porque quase não saía da fazenda, dias inteiros de olho na imensidão dos campos, até o horizonte sem uma árvore, só os bois, o silêncio dos bois, o vento que sopra mudo sobre a fina camada verde. Da roça, ele saía para despachar na prefeitura, coisa rápida, de uma ou duas canetadas, quando então aproveitava para ver o que ela aprontava na casa da vila, onde morava sozinha a maior parte do tempo. Depois voltava para a fazenda, levantando poeira com os pneus grossos da caminhonete. Era uma cabeça que não entendia de pombos.

Mas não apenas o marido-prefeito questionou a ideia de dona Bragança. Muita gente fez troça, todos os nove vereadores e o médico da cidade, que ainda alertou sobre o risco que aquelas aves apresentavam à saúde das pessoas. A doença do pombo é praticamente incurável, ele disse, sobretudo em uma cidade com poucos recursos, não faz sentido trazer para Buriti Pequeno um animal considerado tão repugnante quanto os ratos. Mas dona Bragança já havia estado em oito capitais e sabia que não era verdade. Há pombos por todas as praças de todas as cidades do mundo e ninguém vê os citadinos caindo pelas beiradas por doença alguma. Fora muitas vezes a Goiânia e a Brasília, sobretudo depois que o marido assumiu a prefeitura, e uma vez a São Paulo, quando se casou, quarenta anos atrás, para passar a lua de mel em Santos. Sempre que viajava, tirava fotos dos pombos, até dos mais feios, e sonhava com o dia em que eles também estariam em sua terra natal. Não deu pelota para o médico, tampouco para a professora que alertou que as fezes dos pombos são ácidas e estragam os monumentos — isso era problema de mínima importância, para não dizer de importância nenhuma, já que em Buriti Pequeno, afora a cruz do Largo, não há monumento de qualquer tipo.

Com razão, Bragança não quer dividir a alegria da soltura. Não era mais nem a mulher do prefeito. Era a mulher do pombo. Uma noite, depois da missa de domingo, quando passava em frente à lanchonete, ouviu uns negrinhos que comiam bauru em uma mesa de metal dizerem lá vai a mulher do pombo, uma completa falta de respeito, inclusive com seu sobrenome. Se tem algo que toda a Buriti Pequeno já ouviu dizer é que ela tem um pé na realeza, parenta distante da princesa Isabel, embora não saiba precisar o grau, e é por isso que sempre foi diferente. Invejosos, com toda certeza invejosos! A mulher do pombo. Pois que seja. Agora que a praça ganharia vida, que eles alimentariam os bichos nas tardes ensolaradas com floquinhos de pipoca, dariam à sua ideia o devido valor. A mulher do pombo. Desaforados. Uma gente que nunca saiu de Goiás nem para dar um peido.

É por isso que quando as arrobas abundaram, quando chegaram às centenas, às milhares, ela exigiu do marido-prefeito uma viagem à França. O marido ganhava dinheiro como nunca e tudo o que fazia era encher o pátio da fazenda de caminhonetes, gastar com churrascos, cachaças de alambique, revólveres, espingardas e outras coisas de homem. Filhos, não tinham para mandar estudar fora. Então o dinheiro ia escoando nessas rudezas, coisas das quais ela não tirava proveito, já que não sabia beber, atirar ou dirigir. Que o marido fizesse ao menos esse esforço para agradá-la, uma viagem ao exterior, e nunca mais precisariam imaginar como é a vida do outro lado do mundo. O marido não tinha gana de ir, estava satisfeito com a vida que conhecia em Goiás, mas foi o único jeito de se livrar da ladainha da mulher. Com a ajuda da assessora, comprou um pacote de dez dias na Europa, saindo do aeroporto de Congonhas para posar em Lisboa, e tiveram aquilo que muitos chamam de segunda lua de mel, que é uma lua de mel sem sexo e com mais dinheiro do que costumam ter os recém-casados.

Foi essa viagem que deu à dona Bragança os definitivos argumentos de que precisava para convencer a gente de Buriti Pequeno. Trouxe tantas fotos com pombos, alimentou tantos pombos em Lisboa, Barcelona, Roma e Paris, mesmo sendo multada nesta última cidade por contribuir para o fortalecimento de uma praga urbana, que ninguém falou mais nada — que mandasse trazer os bichos. Quanto custaria o desejo da velha? Uma mixaria, duzentos reais o casal, e isso que pagaram caro. Ela preferiu não arriscar com os casaizinhos de trinta reais, magros e oleosos, que a assessora do marido-prefeito mostrou na tela do computador. O que pesou foi o transporte. Pela delicadeza da carga, trazer seis pombos de Goiânia a Buriti Pequeno custou tanto quanto encher uma carreta de gado, isso nas contas do marido. À dona Bragança pareceu tudo muito justo; não fossem os bichos adoecer no caminho por economia porca. Que viessem no bem-bom, a comer e a beber água fresca em carro de passeio. Ela os queria fortes e saudáveis para o grande momento que àquela hora se avizinhava.

Quando ouviu a campainha, soube que eram os funcionários da prefeitura. A empregada os deixou passar, mas dona Bragança deu ordem para que esperassem junto à porta da área de serviço. Esvaziou as vasilhas de água, trocou as folhas de jornal das bandejas que já estavam cobertas de merda, cobriu as gaiolas com fronhas brancas, queria que fosse uma grande surpresa, e mandou os rapazes carregarem com cuidado. Chegando à prefeitura, que não se esquecessem de repor a água e que não deixassem a gaiola em lugar abafado, nem pegando muito sol — tudo ameno, como o é na santa natureza. Rindo, os rapazes saíram com as gaiolas, desceram as escadas, atravessaram a ruazinha de paralelepípedos e cruzaram a praça do coreto, onde mais tarde aconteceria o ato há tanto planejado. Dona Bragança, pela primeira vez em muitos anos, chorou. Um choro miúdo, discreto, mais para um arrulhar de pomba. A empregada, que naquele momento lhe servia o café, nem sequer percebeu.

O figurino para a cerimônia estava escolhido e esticado sobre a cama, terninho floral com camisa de cetim feitos pela melhor costureira de Goiânia, meia-calça fio sete, brincos e colar de pérolas de rio. De calcinha e sutiã, abriu a gaveta da penteadeira e tirou de lá a relíquia do padre Pelágio, um pedacinho do barrete que ele usava nas missas em Trindade. Bragança beijou com reverência a relíquia e a meteu no sutiã. Fez o sinal da cruz. Divino Pai Eterno, vós concedestes ao padre Pelágio o sentido das coisas divinas e humanas. Por isso, ele viveu para vós e para o vosso povo. Por isso, ele acertou o caminho que vai até os necessitados e sofredores. Pela intercessão do padre Pelágio, atendei o meu pedido. Concedei-me a graça que vos peço com fé e confiança. Então dona Bragança falou com deus, de olhos fechados, soprando coisas secretas, coisas em que ela acreditava. Feitas as tratativas, voltou a rezar em voz alta, um pai nosso, uma ave Maria, uma glória ao pai. Preferia rezar nua, embora o padre já a tivesse censurado em confissão por esta prática. Depois botou a roupa, passou perfume, maquiagem, escovou os cabelos. Ouviu o carro de som que passava longe, talvez às margens do Amanaçu, convocando os cidadãos. Mal podia acreditar, estava chegando a hora.

O marido-prefeito apareceu para acompanhá-la. Desceram juntos as escadas da casa, pararam no último degrau para que o fotógrafo fizesse um retrato, os funcionários da prefeitura e da câmara municipal aplaudiram. O carro de som, agora estacionado no extremo da praça, tocava funk, música eletrônica e sertanejo. O pipoqueiro distribuía saquinhos pequenos de pipoca e a mulher do dono do mercadinho, no comando de uma caixa de isopor, dava guaraná Jaó em copos de plástico, tudo pago com dinheiro da prefeitura, ao povo o que é do povo, a deus o que é deus, conforme lema de campanha do marido-prefeito. Dona Bragança se sentou em uma das cadeiras reservadas às autoridades, embora não tivesse vontade de se sentar, encalorada, o sapato apertado, o refrigerante quente, doida para ter com os pombos. Queria que a festa chegasse logo ao ápice, que aquilo mesmo, aquela balbúrdia, não tinha graça nenhuma.

Olhou em torno e viu a juventude nervosa, de riso frouxo e malvado, as bocas abertas e molhadas. Bragança não gostava de jovens — se pudesse escolher, eles não estariam ali. Reparou que os homens, a maioria de chapéu roto e botina barrenta, não comiam pipoca, não tomavam refrigerante, não sorriam, só olhavam desconfiados a lambança dos outros. Tinham botões abertos no peito, pele de tijolo, mãos cheias de calos e feridas antigas. Gente cansada assim não sabe brincar de nada. As mulheres, apesar do cansaço, eram diferentes. Conversavam, comiam pipoca com os filhos, com os netos, gritavam com eles, bravas, carinhosas, algumas magras, outras pançudas, e aproximavam a festa daquilo que a dona Bragança queria que fosse. As mulheres e as crianças, que só falavam dos pombos. Cadê os pombos, tia? Cadê os pombos? Dona Bragança, na luta da espera, arrancou fora o paletó floral, porque também ela só pensava nos pombos.

Chegado o momento, mandaram desligar o carro de som e falaram ao microfone as autoridades de praxe, sobretudo o marido-prefeito, que era sempre quem falava mais. Por último, enquanto traziam da prefeitura as gaiolas, chegou a vez de dona Bragança. Abriu o caderninho de capa dura, pigarreou, ignorando os risinhos da mocidade, e começou a ler o discurso. O povo prestou atenção até as gaiolas chegarem, depois ninguém mais quis saber da mulher do pombo. As crianças entraram em polvorosa, as mulheres se aproximaram para ver, os homens de chapéu, mesmo tentando manter alguma indiferença, esticaram o pescoço para assuntar. Criatura de deus, o pombo é uma flor que voa. À última frase, que ninguém escutou, se seguiram um aceno de cabeça da primeira-dama e os fogos previamente combinados. Zum, zum, pow, pow, pow, shshshshi. Os pombos entraram em pânico nas gaiolinhas e dobraram asas ao avesso e se debicaram e se cagaram e se amontoaram uns sobre os outros. Dona Bragança estremeceu. Se acontecesse algo aos pombos, era capaz que caísse ali mesmo, durinha, de vergonha e desgosto.

Passado o susto, os bichos foram se ajeitando de novo nas gaiolas, os olhos arregalados, vivíssimos. Respondendo à convocatória do prefeito, o povo começou a jogar pipoca para os pombos, aos montes, uma quantidade que nem cem pombos comeriam. Os floquinhos, misturados aos copos de plástico arrebentados e grudentos de refrigerante, formaram um tapete de imundícies no chão da praça. E mais e mais pipoca, sem parar, até que a primeira-dama tomou coragem de abrir uma das gaiolas. Dona Bragança pegou um pombo, coração atravessado na goela, e jogou o relutante animal em direção aos céus. O pombo foi ao chão, mas de pé, sem drama. Pôs-se a comer freneticamente enquanto o povo, ainda mais ouriçado, esvaziava os saquinhos de pipoca. Com o segundo pombo, aconteceu o mesmo. E com o terceiro. E com o quarto. E com o quinto. Apenas o sexto pombo não comeu — caiu com uma das asas estropiada, esticada ao longo do corpo roliço. Ferido talvez no ardor dos fogos, não teve apetite. Os demais comeram feito loucos.

O marido-prefeito mandou o carro de som voltar com a música e abriu uma lata de cerveja oferecida por um correligionário, gargalhando de alívio; finalmente estava livre dos pombos. Os jovens dançavam, se abraçavam, cantavam, se divertiam. Dos homens de chapéu, não restou nenhum. Já as mulheres continuaram pela praça, mas cuidando de seus assuntos, conversadeiras, de costas para o lixo onde os cinco pombos sãos comiam como se nunca antes tivessem se alimentado. As crianças catavam as pipocas do chão e jogavam para cima, às vezes para os pombos, jogavam umas nas outras, até botavam na boca o que pegavam na terra, brincavam alucinadamente. Em meio à confusão, um funcionário da prefeitura recolheu a ave inválida de volta à gaiola, por instinto e iniciativa dele, que ninguém estava preocupado com isso, nem mesmo dona Bragança. A ela, só importava que um dos pombos sadios voasse, ao menos um, antes que a praça ficasse vazia. Mal respirava apertada nas roupas quentes e no sapato horrível, olhos ávidos sobre os pombos, suarenta, louca, morta de sede. Mas os pombos, desgraçados, que tudo viam e de tudo sabiam, se recusaram a voar.

© Todos os direitos reservados.

Written by

As coisas que eu queria mostrar pra você

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store