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Na lama que desce o Morro da Baleia, vemos insetos que esperneiam, pedaços de pequenos bichos, patas articuladas, asas translúcidas, antenas, ossos, carcaças de passarinhos. Além de nós, não há testemunha do que se passa agora: apenas eu e tu presenciamos a água pardacenta que desce os morros com toda sorte de galhos e folhas, húmus e líquens. Depois de meses de estiagem, chegaram da Amazônia os rios voadores. Com eles, as tempestades. Sem trégua, durante três dias e três noites. E a chuva continua a cair, encharcando a mata e a cidade, encolhendo os pássaros nos ninhos, enchendo as estradas de sapos que cantam ao dilúvio. Um coro de sapos infláveis, marrons e papudos, que canta cada vez mais alto. É de uma velocidade impressionante, a enxurrada. Arrasta cobras, pacas, escorpiões, manobra por entre os troncos das árvores, desvia das rochas, arranca a terra crua do chão. Onde tem tanta urgência de chegar, não sabemos.

Na vila, o Amanaçu aguarda na iminência do transbordamento. Aquele quase, quase, igual a leite fervendo na panela, até que a água malcheirosa extravasa e avança sobre o chão de pedras; o rio já não é mais rio. Alcança as primeiras casas, as lojas de comércio, a delegacia e o prédio da prefeitura, dando início à debandada geral, com as pessoas tentando salvar objetos pessoais, documentos, mercadorias. Nas ruas em que a água ainda não chegou, mulheres queimam capim-santo nas janelas para pedir a santa Bárbara que a chuva amaine, mas não adianta, santa Bárbara deve estar distraída. Nos recintos dessas casas, os espelhos estão cobertos por pedaços de pano para que não atraiam raios. Como a energia acabou, as mulheres aproveitam da mesma vela para rezar e iluminar a casa. Pensam nas galinhas poedeiras que estão nos quintais, nas codornizes, nos canários das gaiolas, se sobreviverão à enchente. Nas ruas alagadas, beatas passam com água na cintura e uma imagem da virgem peregrina devotamente envolta em sacos plásticos. O padre até rezou para que a chuva cedesse, mas desistiu. Diz que deus não é um feirante que vende graças em troca de rezas, não é obrigado a nos atender. Por isso, o padre não gasta mais uma única vela pelo cataclismo que abate Buriti Pequeno, só mantém o regime oratório costumeiro. Está no meio de um Pai Nosso quando desconfia que os desabrigados logo chegarão à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. A igreja fica na parte mais alta da cidade, é natural que procurem abrigo nela.

O Zezinho, que até pouco tempo era o único mendigo da região, quer mais é que todos se fodam, que a água bote esse povo escroto para correr. No cemitério, onde ele costuma dormir, à exceção do som da chuva contra as lápides, o silêncio é absoluto. Ninguém sabe da tromba d’água que vem descendo o lombo do morro, mas Zezinho pressente que algo está para acontecer e gargalha de felicidade, quebrando o silêncio, chega a verter lágrimas. Pudera ele ver o que nós vemos, o Morro da Baleia se desmanchando, já sem as primeiras camadas de terra. Há pouco, as árvores começaram a cair. Cagaiteiras, tinguizeiros, ingazeiros, uma sucupira preta. Muitos bichos, encolhidos nos desvãos da mata, sentem fome, sentem muita fome. É que o espírito da água não sente pena de ninguém. Na descida, arrasa as duas granjas, a de porcos e a de galinhas, dissolvendo-as como se fossem de açúcar. As granjas e tudo o que havia dentro delas, bichos e gentes. Quando a enxurrada que desce o Morro da Baleia encontrar o Amanaçu, o espírito nem se lembrará de nós.

Na penumbra das últimas casas que ainda não foram alagadas, agarrado a terços e mandingas, comendo restos de biscoitos amolecidos, desatento às crianças que brincam ignorantes do mal que grassa, o povo espera. Não há o que fazer além de esperar. Até que se ouve o rumor da água, a fúria com que adentra a cidade, um terremoto, e todos correm às janelas para saciar aquela estranha sede de desgraça, ainda que dessa vez sejam eles mesmos os desgraçados. Então saem com o que é possível carregar, uma tevê, uma criança, uma bolsa puída na cabeça. Tentam vencer a correnteza a passos largos, mas há dificuldade, os paralelepípedos estão se soltando, novos buracos se abrem no chão, não há terra firme. Desentocados, os ratos nadam lado a lado com os homens e nesse momento são tão parecidas as duas espécies que não existe entre elas qualquer animosidade. Aos ratos, nesse dia, é permitido viver. Homens e mulheres choram por toda parte, choram por suas camas e colchões, por suas geladeiras e roupas, pela noite que se avizinha sem teto. Onde dormirão?

No Largo, a cruz de madeira tombou e desapareceu carregada pela lama. Na Igreja do Bonfim, os jornaizinhos de missa trafegam em ondas, já invadiram o altar onde a água profana a toalha branquíssima bordada com raminhos de trigo. Ao menos o sacrário está a salvo, mas não se sabe até quando. A tinta das paredes da igreja está caindo em blocos, crostas que derretem na água imunda. Logo que a tromba avançou sobre as ruas, o cheiro de esgoto dominou a vila. A borrada das fossas subiu para se juntar à das granjas e neste momento as merdas de todos fazem também parte dessa sopa. Algumas estão liquefeitas, se misturaram ao lamaçal, ao passo que outras estão inteiriças e boiam ao sabor da correnteza, toletes de gente pobre e de gente importante, juntos, como se tivessem brotado do mesmo ânus. Ao padre, não resta alternativa, abre agora sua igreja tão limpa e tão branca aos desabrigados, que chegam carregados de tralhas e sujeiras. No calor da urgência, ignoram-se as diferenças de credo, vão todos os que conseguem, lotam a nave e o salão paroquial.

Alguns velhos, auxiliados ou mesmo carregados como crianças, sobem as escadarias da igreja e essa subida é lenta, não por pesarem muito, mas por serem frágeis, quebradiços. Passam por eles cães de pelos úmidos, trotando. No calçamento ao redor da igreja, os cães se espalham em muitas cores: pretos, malhados, marrons, brancos… Dizem que os animais são os primeiros a sentir a aproximação de uma catástrofe e evadem antes que qualquer pessoa perceba algo de errado, mas aos cães de Buriti Pequeno faltou esse sentido extraordinário. Nadam calmamente na água empesteada ou apenas seguem a procissão de flagelados que sobe em direção à igreja dos pretos. Lá de cima, os cães veem os gatos nos telhados das casas, sorriem do jeito que sabem sorrir e pensam: nós ainda vamos pegar vocês. Essa indiferença dos cães é insuportável às pessoas que veem os telhados de suas casas boiando na enchente. Por isso, toda hora alguém os enxota a pontapés. Mas não tem problema, sempre aparece um são Francisco para dizer que os animais também são filhos de deus. E os cães voltam para onde estavam.

Um pouco antes da chegada da tromba, uma caravana de caminhonetes se deslocou para a entrada da cidade. Alguns motoristas ainda aguardam parados perto do trevo, mas cinco caminhonetes, incluindo a do prefeito, já partiram em direção às fazendas. Na estrada, esses homens passam cada minuto a calcular prejuízos, como máquinas que não conseguem fazer outra coisa que não aquelas para as quais foram programadas. O padre sempre comenta que um trator só tratora, já o ser humano pode planejar o plantio, arar, adubar, semear, colher; não há máquina melhor que as mãos do homem. Mas só os que têm dinheiro — e portanto pouco usam as mãos para trabalhar — puderam se safar da tromba que devasta a cidade. Então, quando o padre começa a falar da providência e da vontade divinas, todo mundo ignora.

E como as crianças choram na igreja dos pretos! Choram de fome e frio, choram de medo e cansaço, choram sem parar. O som reverbera no pé-direito alto, de modo que um bebê corresponde a pelo menos quatro. Este cenário, naturalmente calamitoso, se torna exasperante, sobretudo àqueles que não têm ou têm filhos já crescidos. Andando entre os flagelados, o padre comenta que a prefeitura tem de se pronunciar logo sobre a situação. O povo precisa comer, beber água, se agasalhar. É necessária a ação imediata do município, ele diz com o dedo em riste. Por mais que a chuva arrefeça, vão ter de esperar a água descer e por enquanto a igreja dos pretos é o único abrigo possível.

O pessoal do terreiro, que até crê na providência, mas do jeito dele, chegou e procura um canto para se acomodar. Como outros, trazem galinhas amarradas pelos pés, sacolas e trouxas. Parece então que não falta ninguém na igreja e ao redor dela, estão todos cá, exceto o Zezinho, além dos que partiram de automóvel. Atrás dos morros, no fundão do mato, há mais gente, pequenos lavradores, indígenas. Mas estão fora da rota da tromba — portanto em melhor situação que os citadinos. Para as beatas, não é acaso que a igreja seja asilo nesse infortúnio. Alheias à balbúrdia geral, já centenas de crianças, mulheres e homens se abrigam aqui, descem com dificuldade ao genuflexório e desenrolam os terços dos pulsos. Os joelhos acinzentados, cascudos de tantas missas, como os das velhas que também empunham rosários em igrejas de lugares distantes, estalam ao contato com a madeira dura. Ave Maria cheia graça, bendito, fruto, ventre, Jesus. Ave Maria cheia graça, bendito, fruto, ventre, Jesus. Ave Maria cheia graça, bendito, fruto, ventre, Jesus. As palavras ecoam na nave dos desabrigados.

Nas paredes, a Via Sacra, pintada a óleo e reproduzida em papel sulfite para esta paróquia, mostra que o filho escolhido também sofreu. Os que contemplam as imagens do martírio se sentem ainda mais insignificantes; se nem a perfeição do Cristo enterneceu o criador, o que será de nós e de nossos problemas? Alguns, ao som da chuva que bate contra os vitrais, vendo tudo arrasado, arrepiados de frio e com a barriga roncando de fome, questionam a existência de um criador. Se ele tudo fez e a tudo sustém, por que criou a natureza imperfeita? Por que padecemos? Filosofam sem saber, mas logo afastam esses pensamentos. Se com um pouco de fé já estão em circunstâncias tão precárias, imagine se deus se voltar contra eles.

Uma menina de cinco anos e tranças esgarçadas, debruçada sobre uma trouxa de roupas, olha para o último quadro. Nele, Jesus está morto. Seminu, desfeito nos braços de umas poucas mulheres chorosas que usam véus sobre os cabelos, não se parece com alguém de quem se diria “este é o rei dos reis”, e é precisamente esta a contradição que assombra. Ele está prestes a ser depositado no sepulcro para uma ressurreição que há de vir, mas não se revela. Nos quadros, a história do menino deus acaba assim, não existe o triunfo da vida sobre a morte. São uns quadrinhos tristes, que a menina não entende nem gosta, por isso logo se desinteressa. Entediada, esfrega os olhos com os punhos, boceja arreganhando os dentes de leite já cariados, deita a cabeça sobre a trouxa úmida, coça uma nádega. Devagar as pálpebras da menina vão caindo, até que o corpinho inteiro, lasso, desaba em colchas de sonhos. Aos poucos, outras crianças silenciam e adormecem, e uma parcela de calma é recuperada na nave.

À noite, a tempestade cai ainda mais forte e o padre fecha as portas da igreja para poupar da friagem e da cena do dilúvio os desabrigados. Mesmo os que não são católicos permanecem em estado de meditação, hipnotizados pela luz bruxuleante das velas e pela presença pulsante do sacrário. Quietos, ouvem a água que bate contra as paredes da igreja e as trovoadas que irrompem ao longe, nos morros. Nenhuma ajuda, além da que o padre ofereceu, veio de parte alguma. Os adultos não dormem, mas é uma vigília inútil. Pela manhã, quando o sol se levantar, abrirão as portas da igreja e descobrirão que todas as casas desapareceram. E também todas as lojas, a praça, o coreto. Verão que não existe mais mercado, rodoviária, hospital, calçamento. Constatarão estupefatos que, à exceção da igreja dos pretos, não há mais nada. Apenas um único e imenso rio, onde Zezinho boiará e gargalhará com os olhos vidrados e a boca cheia de dentes apodrecidos. De um lado a outro do vale, a água se estenderá turva. E o padre dirá: Já não há cidade. Já não existe Buriti Pequeno. E somente nós, eu e tu, saberemos: daqui em diante será como se nunca houvesse existido.

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