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Para Gil

A mão da menina abana pela janela enquanto o carro trota sobre o chão de paralelepípedos. O carro faz a volta na praça, desaparece na curva, volta a aparecer por entre as colunas do coreto e a mão da menina não para de abanar. Abana como se fosse de tecido, a mão. Um lencinho frágil que tremula do mastro dos seus doze anos. A menina dona da mão nunca esteve em outro lugar, seu mundo é Buriti Pequeno, os muros esverdeados onde crescem profusas samambaias, as mangas maduras espatifadas nas calçadas, a beira suja do rio. Seu mundo é a fazenda, a estrada de terra, o feijão com arroz e a farinha de mandioca, as seriguelas, a galinhada com pequi. Seu mundo é o sangue dos porcos no matadouro, os berros dos porcos, os porcos ainda vivos, agonizando, e a camisa suja do tio quando volta da matança. O mundo da menina que abana é o quartinho sem porta, o colchão puído, a prima mais velha que já conhece os homens, os brinquedos muito raros, a missa de domingo. O mundo da menina é aquela mão que abana e abana quase desesperada de medo e vontade de conhecer outras paragens, mundos feitos de cimento, fumaça e plástico. Agora ela conhecerá tudo.

Pela janela do carro, a menina vê a mãe com as palmas unidas junto ao peito e os dentes apertados na boca. Vá com deus, a mãe grita. E tudo aquilo que a menina deixa para trás no abanar da mão sem freio é coisa que as duas, mãe e filha, conhecem em igual medida. Mas a menina saberá mais, infinitamente mais: há de se tornar a pessoa importante da família. É o que todos dizem, fascinados com a vida que a menina levará na capital. Todos menos Irene. Ela não deu um sorriso desde que acordou, não tomou café da manhã, apenas perscruta com olhos marejados a menina que foi sua. Como dói vê-la partir, como é difícil presenciar esse desterro. É para o bem da menina, Irene. Será? Quando o carro desaparece na esquina, Irene faz o sinal da cruz e tomba a cabeça, apertando o queixo contra o peito.

Passa dias, passa semanas sonhando com aquela cena. A filha de coque bem puxado para trás, a franjinha crespa presa com três grampos dourados, abanando a mão pela janela do automóvel. As unhas, pequenas e roídas, pintadas de cor-de-rosa pela prima mais velha. A menina estava alegre, Irene sabia. Mas alegre de uma alegria boba, alegria de quem nunca viu maldade em nada. Não é à toa que Irene ficou triste quando a filha subiu naquele carro para mudar de mundo. Morria de medo do que as luzes da cidade fariam com ela. Com o passar do tempo, talvez a menina nem se lembrasse que tinha mãe. Ou tivesse vergonha, nervoso. Gente estudada não costuma ter paciência com analfabeto. Eu não sei mesmo conversar sobre uma porção de assuntos, Irene pensava. Quando a filha voltasse, falariam sobre o quê? Irene passou semanas vertiginosas, sem entender direito o que estava sentindo, como não entende agora que a notícia lhe chegou.

Após rever muito a cena da partida, sentada no banco comprido de madeira que fica nos fundos do casebre, perto do fogão à lenha e da meia dúzia de gatos que ali permanecem a despeito da violência com que são tratados, Irene pensa no dia em que a madrinha, que não era bem madrinha, pelo menos não de batismo, decidiu levar a menina para Goiânia. As crianças da fazenda e dos arredores chamam a velha de madrinha, ainda que ela nunca tenha batizado ninguém. A menina passou a fazer o mesmo quando se mudou para lá com a mãe e, ninguém sabe a razão, a madrinha tomou gosto pela pequena. A velha, pesada e de joelhos grossos, despencava na cadeira de balanço que fica na varanda do casarão, punha a bengala de lado e cobrava a tabuada da menina. Seis vezes oito, quarenta e oito. Nove vezes cinco, quarenta e cinto. A velha sorria, batia palmas, se engasgava, cansada de tanto cansaço, e pedia que a menina lhe trouxesse um copo d’água ou um pratinho com doce de mamão verde. Você é uma moça muito jeitosinha, falava com a boca cheia e o prato escorado nas mamas. Em um desses dias, resolveu levar a menina.

Irene tomou um susto. Que história é essa de levarem a minha filha? Tenho a cabeça fraca, mas sei que ninguém pode sair carregando filho dos outros assim, disse. A cunhada, que lhe contara a novidade, permaneceu em silêncio, não imaginava que a reação seria negativa. Sabendo que era muito difícil explicar qualquer coisa para Irene, pediu ajuda ao marido. Este, tio de sangue da menina, convocou Irene ao matadouro. Esfregava ainda as mãos sujas de vermelho em um pedaço de pano quando explicou à irmã que aquela era uma grande oportunidade. Imagine que beleza a menina, já tão sabida, estudando em uma escola de Goiânia. Em troca, só teria de ajudar nos afazeres da casa, acompanhar a madrinha nas consultas, coisa pouca que toda neta cumpre com os avós. Tem certeza? Tenho, respondeu o irmão, a madrinha é gente muito boa. Depois dessa conversa, a novidade chegou aos ouvidos da menina, que pulou e dançou pela fazenda o dia inteiro. Naquela noite, conversou com a prima até tarde, cada uma em seu colchão, os olhos reluzindo no quarto escuro. Às vezes, soltavam risadinhas abafadas, comportamento que os mais velhos reprovariam em outras circunstâncias, mas até eles estavam de olhos vivos na penumbra. A menina fora convidada para morar em Goiânia, estudaria em uma escola de verdade, não essa miséria que chamam de escola aqui no campo, e estaria sob a proteção de uma senhora respeitada. A situação era tão extraordinária que todos na fazenda só falavam disso, da sorte que a menina tivera. Apenas Irene permanecia reticente, desconfiada, não gostava da madrinha. Mas, seguindo a vontade da filha, concordou com a mudança.

Em meio a essas memórias, vem um gato branco e se esfrega na perna de Irene. Leva um chute e desaparece entre os pés de mamona que cercam o casebre. O café que a cunhada servira na caneca de alumínio horas antes está frio e quieto no centro da mesa, com uma mosca esperneando dentro. Outro gato aparece, Irene joga nele o café. Só a menina para gostar desses bichos! Lembra-se das perguntas feitas durante os dias seguintes ao convite da madrinha. Goiânia é parecida com Rio de Janeiro? Irene respondia que sim, embora só tivesse estado em Goiânia uma vez, aos dez anos, para tratar da epilepsia. A única recordação marcante era uma dor de cabeça atroz, ocasionada talvez pelas luzes, eram luzes fortes demais, mas não tinha razão para contar isso à menina. Naqueles dias, sempre que assistiam à televisão, surgiam questões sobre a semelhança entre Goiânia e as cidades envidraçadas que viam no jornal e nas novelas. Irene, sem graça e também sem paciência, confirmava. É desse jeitinho, sim. A menina dizia não ver a hora de conhecer um cinema.

O gato branco volta, insiste no afeto irritante de esfregar-se nas pernas, até que Irene se levanta enfezada. O bicho corre, desaparecendo entre os arbustos que crescem perto da antena parabólica. Sobre os fundos do casebre, cai uma escuridão dura. São quase dez da noite. O irmão aparece para pedir que ela entre e faz isso com muita doçura, um modo que ele não costuma ter. Vem, mana, vem descansar, coloca na sua cabeça que o dono das nossas vidas é Jesus. A cunhada, sabendo que Irene não entraria, leva um prato de arroz, feijão, abóbora e galinha. Mas Irene não quer saber de comida, ignora o prato em cima da mesa e a segunda xícara de café que lhe servem. Volta a se sentar no banco de madeira e a pensar, tentando entender que raio de ônibus é esse que matou sua filha.

A notícia chegou cedo a Buriti Pequeno, mas demorou umas tantas horas para alcançar a fazenda. Na sede, o primeiro a saber foi o capataz, depois a mulher dele. Então o tio da menina, seguido da tia. Quem soube por último foi Irene. A menina, que morava em Goiânia havia pouco mais de dois meses, morrera atropelada por um ônibus. Disseram que estava voltando da padaria, a mando da madrinha, quando o ônibus passou por cima. Teve quatro costelas quebradas, hemorragia interna, era muito miúda, durou nada no asfalto. É claro que não contaram isso assim para Irene, mas não fez diferença, porque ela não entende. Como é que um ônibus vai matar uma pessoa? Ônibus são lentos, ela via os que entravam na vila, como se balançavam sobre o chão de pedras. E a filha não veria um ônibus se aproximando? Era uma menina esperta, todo mundo sabe que era uma menina esperta. Isso não tem cabimento, ninguém morre atropelado por ônibus, ela repetiu o dia inteiro. Irene foi dita retardada por um médico que a examinou quando ela repetiu pela terceira vez a primeira série. Em um laudo escrito à caneta, o doutor atestou que ela era inábil para os estudos, então Irene saiu da escola e não aprendeu a ler. Mas Irene nunca se achou burra. Essa história de ônibus não tem cabimento, ela repete. E repete. E repete. O irmão e a cunhada desistem de explicar.

Até agora Irene não chorou. Aquela mãozinha franzina, quer dizer que ela não vem mais? Se lembra da madrinha no banco da frente ao lado do motorista, uma mulher papuda, uma mulher branca, uma mulher que não olhava direito para ela, mãe da menina que estavam levando, como se Irene fosse muito pouco, como se Irene fosse nada. A noite já vai alta quando ela olha para cima, encara as copas escuras das árvores e sente um estalo no meio da cabeça, pá! Faz uma noite sem luar, as estrelas pingam aqui e ali entre as nuvens, e de repente Irene entende tudo. Pisando o cascalho, ela caminha no breu até o matadouro. Nunca havia percebido como é sereno o lugar onde se matam os porcos. É um matadouro simples, que abastasse a cidade, hobby do fazendeiro, tem cheiro de ferrugem e terra molhada. Sente vontade de ficar aqui mais um pouco, mas não há tempo. Da parede, tira a faca da matança. Guarda como pode entre as dobras da saia e, em silêncio, entra na casa.

Vê a sobrinha dormindo tranquila no quarto da frente. Nunca pareceu sentir falta da prima que há pouco dividia esse quarto com ela. Se antes já não gostava da garota, agora gosta menos ainda. Caminha pelo corredor cinzento e para diante da cortina que serve como porta ao quarto do irmão, afastando-a com cuidado. Ele está dormindo de shorts, sem camisa, de barriga para cima, ao lado da mulher que se encolhe sob o lençol. Como puderam dizer que a menina estava segura? Como puderam enganá-la assim? A menina, sua única riqueza, a menina, seu único feito, a menina, sua única felicidade, a menina. Em passos lentos, avança e estaca ao lado da cama, ouvindo o ronco cavernoso do irmão. Dormem nessa tranquilidade porque a filha deles está no quarto ao lado, mas e a sua? Irene deixa o ódio crescer e, quando sente que o ódio já não cabe em si, aperta o cabo da faca.

No banheirinho, acende a lâmpada amarela que pende de uma ripa de madeira e se encara no espelho; é a mesma Irene de antes. Não volta ao quarto do irmão nem ao da sobrinha. Em vez disso, pega a bolsa na sala, que é onde ela tinha lugar para dormir, e confere um dinheiro na carteira: sessenta reais que ganhara por limpar o casarão mais um punhado de moedas. Trêmula, pega as duas caixas de remédio ao lado do filtro de barro, não quer ter uma crise na hora errada, e enfia na bolsa. Faz o mesmo com a faca e abandona o casebre. Não pegou uma blusa de frio, não calçou um sapato decente. Só saiu da fazenda, largando a cancela aberta, e se pôs a caminhar pela estrada de chão. Espera chegar à vila ao amanhecer. Então pegará o primeiro ônibus para Goiânia e, lá estando, colocará uns óculos escuros que não usa há anos. Quem lhe arrumou aqueles óculos? Não se lembra, talvez alguma antiga patroa, dos tempos em que fora empregada doméstica na cidadezinha. Quer usar os óculos escuros para que não leiam nada em seus olhos.

Durante a caminhada, Irene pensa na madrinha. Diz em voz alta que ela não é e nunca foi protetora de ninguém. Depois grita espumando que a velha pegou a menina para fazer de escrava! Foi ela, a madrinha, a maldita madrinha que o irmão e a cunhada garantiram ser boa gente, quem matou sua filha. Irene assusta um casal de quero-quero, chuta o ninho de uma coruja buraqueira e nem se importa com as bicadas que leva. Irene não sente nada, apenas no ombro o peso da faca. Pensa na lâmina fina que atravessa a gordura dos porcos, no cabo grosso de madeira que se acomoda perfeitamente entre os dedos e no silêncio azul que enche o mato depois da matança. Pensa, como sempre pensará a partir de então, na mão da menina, e só para quando o sol surge por detrás do Morro da Fátima, iluminando a curva do rio e os telhados vermelhos da vila.

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