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Na lama que desce o Morro da Baleia, vemos insetos que esperneiam, pedaços de pequenos bichos, patas articuladas, asas translúcidas, antenas, ossos, carcaças de passarinhos. Além de nós, não há testemunha do que se passa agora: apenas eu e tu presenciamos a água pardacenta que desce os morros com toda sorte de galhos e folhas, húmus e líquens. Depois de meses de estiagem, chegaram da Amazônia os rios voadores. Com eles, as tempestades. Sem trégua, durante três dias e três noites. E a chuva continua a cair, encharcando a mata e a cidade, encolhendo os pássaros nos ninhos, enchendo as estradas de sapos que cantam ao dilúvio. Um coro de sapos infláveis, marrons e papudos, que canta cada vez mais alto. É de uma velocidade impressionante, a enxurrada. Arrasta cobras, pacas, escorpiões, manobra por entre os troncos das árvores, desvia das rochas, arranca a terra crua do chão. …


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Para Gil

A mão da menina abana pela janela enquanto o carro trota sobre o chão de paralelepípedos. O carro faz a volta na praça, desaparece na curva, volta a aparecer por entre as colunas do coreto e a mão da menina não para de abanar. Abana como se fosse de tecido, a mão. Um lencinho frágil que tremula do mastro dos seus doze anos. A menina dona da mão nunca esteve em outro lugar, seu mundo é Buriti Pequeno, os muros esverdeados onde crescem profusas samambaias, as mangas maduras espatifadas nas calçadas, a beira suja do rio. Seu mundo é a fazenda, a estrada de terra, o feijão com arroz e a farinha de mandioca, as seriguelas, a galinhada com pequi. Seu mundo é o sangue dos porcos no matadouro, os berros dos porcos, os porcos ainda vivos, agonizando, e a camisa suja do tio quando volta da matança. O mundo da menina que abana é o quartinho sem porta, o colchão puído, a prima mais velha que já conhece os homens, os brinquedos muito raros, a missa de domingo. O mundo da menina é aquela mão que abana e abana quase desesperada de medo e vontade de conhecer outras paragens, mundos feitos de cimento, fumaça e plástico. …


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Elas não têm com quem contar a não ser com as minhas mãos, com essas palmas lisas de esfregar roupa, ariar panela, carregar tinas, baldes, bacias, capinar terreiro, depenar galinha. Tenho gosto por lavar roupa, por revolver a terra e por tudo o que as minhas mãos apanham, vai ver por isso deus me deu o conhecimento, a clareza para fazer pelas comadres o que ninguém faz. Ainda que me falte instrução, e que a inteligência para os livros me seja curta, quase nenhuma, há coisas que sei. Há coisas que sei muito bem. O jeito com que se achega ao mato para catar erva de são João, catinga de mulata, folha de algodoeiro, isso eu sei. Como sei escutar os suspiros das comadres, as palavras de cansaço, os gritos delas nos descampados. Aqui nessas distâncias, as mulheres falamos com os passarinhos, com os bois, com as porcas, bichos de curral. As pessoas estão muito longe; à casa mais próxima não se chega sem caminhar um bocado, sem atravessar pedra, pó e estrada. Mas, quando as comadres chamam, eu vou. Não tem explicação, é uma quentura que sinto por dentro, bem aqui, na altura do peito. A vó dizia que o nome da quentura era missão. Essa foi a missão dela. …


O galo de penas azuis é o que se levanta mais cedo. Sobe a uma pedra no quintal quando ainda é noite e chama pelo primeiro borrão de luz, olhando sempre para leste porque sabe, dentro dele e desde sempre, que os dias germinam naquela beirada do mundo. Tia Dita se ergue da cama e põe os pés descalços no chão à cata dos chinelos assim que o galo de penas azuis inicia o chamado. Faz isso de modo invariável, diariamente. Assim ela o fez também com o pai deste galo, e com o avô dele, e com outros galos que viveram neste terreiro. Depois de se levantar, de passar as mãos pelo arrepio dos cabelos e de vestir um blusão puído, caminha até a cisterna para buscar água. Todas as manhãs, tia Dita volta para a cozinha com a lata de alumínio, ignorando a torneira e a pia, essas facilidades, para verter no bule amassado um pouco da água da cisterna. Acende o fogo, pega o pote de café, o de açúcar, gosta de tudo muito doce, e prepara a bebida. Enquanto o café apura, vai ao banheiro e acorda o pente amarelo que dorme no canto da pia. Penteia os cabelos brancos e crespos, puxando-os para trás até conseguir prendê-los, as palmas das mãos muito claras e todo o resto do corpo reluzindo, escuro e liso, como a pele das jabuticabas. O espelho que tem é pequeno, cabe só o rosto na moldura de plástico, o suficiente para tirar as remelas dos olhos e sorrir, ver se os dentes estão no lugar, se as rugas são as mesmas, se cresceram pelos, verrugas, e de vez em quando há algo novo na sua velhice. …


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mandiocal

Lourival escora a enxada na terra, arranca o boné amarelado, crispa os olhos e esfrega a testa na camiseta. Uma papa de suor e barro se deposita sobre o rosto do vereador Amaury Barbosa 15500, político que morreu de infarto há doze anos, durante um churrasco com correligionários na fazenda São José, atrás do Morro da Fátima. Lourival não se lembra se votou ou não em Amaury Barbosa, nem se ele foi ou não um bom vereador, de modo que o rosto na camiseta de campanha lhe passa sempre despercebido, como um braço que faz parte do corpo. As cigarras cantam nas árvores perto da casa e, nos morros, as últimas queimadas atraem os gaviões-fumaça, que planam caçando insetos no ar aquecido pelo fogo. Encostado no cabo da enxada, Lourival olha para os gaviões, o céu escuro de chuva e fumaça. Deve chover de hoje para amanhã, o que deixará a terra pronta para receber as manivas. Quer o solo bem destorroado para que a mandioca cresça livre. Vê Maria caminhar em direção ao futuro mandiocal com um copo de vidro na mão. Agradece com um aceno de cabeça, engole a água de uma vez e devolve o copo enlameado para a mulher. Com a mão na cintura, Maria olha desgostosa a terra remexida, você sabe que nunca plantei aí, nunca. Fica em silêncio, cruza os braços, sacode a cabeça; a minha avó falava que nada vinga nesse canto, tem muita argila, apodrece tudo, não sei por que você teima. Lourival passa mais uma vez a camiseta na testa, suja de novo a expressão sorridente do falecido Amaury Barbosa 15500, e retoma a enxada. …


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Sem motocicleta não dá para chegar. São seis quilômetros de estrada, sem sombra, sem acostamento, só o asfalto preto e quente, carcomido de buracos em que caberiam um pneu inteiro. Mas seis quilômetros não são tanto, até poderiam ir a pé, não fosse tão embaraçoso. Com olhos alertas na penumbra do quarto, Neverson tenta encontrar uma solução, mas não tem jeito, terá de pedir a moto do Edson. Fará isso logo cedo, antes que ele invente qualquer coisa e diga que não pode emprestar. Neverson rói as unhas que restam, até que uma fímbria de luz passa por um buraco na telha e dissolve a escuridão do quarto. Assim que ouve a mãe abrir a lata de café na cozinha, escorre para dentro da calça jeans e passa uma camiseta pelo pescoço. Calça os tênis e sai de casa sem falar com ninguém. Na rua, acende um cigarro, atravessa a ponte sobre o rio cinzento, passa em frente à igreja sem fazer o sinal da cruz e toca palmas diante do portão de uma casa de pé-direito baixo. …


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Tonico toma um copo de café com bastante açúcar antes de sair da casinha na rua Doutor Américo Damasceno, atravessar a Manoel Rocha e passar ao largo do sobradão da dona Amélia. Porque é quaresma, ele veste uma calça de tergal azul e uma camisa de cambraia de linho branca. De resto, usa a colônia de sempre e os sapatos de missa. Os cabelos, meio crespos, estão penteados para trás e formam um topete prateado; Tonico sabe que logo não terá um único fio de cabelo escuro. Embora tenha medo da morte, percebe que ela tem se aproximado sem escândalo, e isso lhe dá certa tranquilidade, a ideia de uma morte branda. Tonico acha que quando morrer não chorarão no velório. E, se chorarem, será pelo drama tradicional dos enterros, não por sentirem que foi uma perda. Alguns dirão “ele viveu muito, agora descansou” e disso não passarão as condolências. E, tendo Tonico vivido tão catolicamente, a ponto de chegar aos oitenta e dois anos sem vícios, quer um velório limpo: o corpo de terno azul claro no centro, dormindo para sempre, cercado de rosas brancas e amarelas. Esse terno, Tonico já tem separado, que ninguém deve escolher a mortalha de um velho. Quase todos de sua geração já morreram. As sete irmãs, a maior parte dos primos e colegas de escola, moças que desejou e que acabaram casadas com homens melhores, mais bonitos ou mais estabelecidos, o padre João e o médico que tratou sua fimose em 1966. Morreram todos. Sem falar nos que já eram velhos quando ele ainda era moço. Se botassem toda essa gente junta, deitada no chão, os mortos cobririam o Largo da Cruz inteirinho. Nas poças que se formam entre os paralelepípedos, Tonico vê os reflexos dos postes que se apagam rua após rua, beco após beco. Choveu de madrugada e uma umidade fresca sobe das pedras que cobrem a cidade. Dos quintais, chegam os cantos dos primeiros galos, um chamando o outro, e o outro, e o outro, até que o sol se debruce sobre os morros e os telhados das casas. Então o tio Tonico terá chegado à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e subirá devagar as escadas da torre. Do Largo, vê a igreja imponente, branca no amanhecer. Lembra-se de quando era menino e fazia esse mesmo caminho na companhia da mãe e dos irmãos. Nos dias santos, o povo se apinhava ali esperando o galo cantar. O padre, paramentado, dava ordem para o repique do sineiro assim que o primeiro galo anunciasse o dia. Quando abriam as portas da igreja, os fiéis se agitavam para tomar assento e depois cantavam gloria in excelsis deo. Acabada a missa, Tonico menino saía da igreja, olhava para a torre e via o pai lá em cima, manobrando o badalo. Não demorou a aprender com ele a linguagem dos sinos. Agora quer que o sobrinho, Josué, tenha dedicação para assumir essa responsabilidade. Josué precisa estar afinado nos dobres e repiques, embora ainda não tenha se mostrado muito apto. O sobrinho não tem ritmo, por isso deverá ser ainda mais estudioso do que foi o tio quando começou. Também terá de aprender a polir a bacia com óleo queimado, a conferir as amarras do badalo, a empinar o meião. Terei tempo de ensinar tudo? Tonico para em meio ao Largo, diante da escadaria, olha para trás, encara a vila sonolenta que se levanta aos pouquinhos. …


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São cinco espectros que se movem às margens pútridas, onde as águas que avançam sobre a terra gorgolejam em copos de plástico quebrados e embalagens desbotadas de batata frita. São cinco espectros, uma coluna de fumaça, cheiro de queimado, algo artificial, dorido. São cinco espectros que se movem perto do rio. Permanecem em silêncio a maior parte do tempo, soltam apenas uma palavra, duas, ruídos, quando precisam chamar a atenção para o cachimbo feito com cano PVC que compartilham passando de mão em mão. Carros fazem ranger as madeiras da ponte e lançam sucessivos feixes de luz sobre as águas, sobre as margens pútridas, e por instantes os cinco ganham rostos, nomes, feridas. São espectros que se movem perto do rio, depois da ponte, cada um tem fome, sede, medo, raiva, cio. E carrega também alguma ternura. Um dos espectros está apaixonado e não é correspondido, nunca foi correspondido, a fumaça que lhe entra pelos pulmões acalma um pouco a espera, queria ter uma namorada, nunca teve, e isso lhe parece injusto. Não é tão mau assim, não é tão feio assim, sabe jogar bola, sabia, agora não joga mais. É difícil passar a vida sozinho, pensa esse espectro, sem entender que é ainda muito jovem, que as coisas estão por vir. Os outros são mais velhos, alguns têm filhos. Há dois que não conhecem o pai e um que deixou de gostar da mãe, tudo igual ao que acontece em toda parte, onde as pessoas são gente de carne e osso. …


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Homem avá-canoeiro. Foto: Mario Chimanovitch (1973)

Matxa Ãwa é uma obra de ficção e seus personagens não correspondem a pessoas, fatos ou situações da vida real, embora seja livremente inspirada em circunstâncias que os povos indígenas viveram e vivem no Brasil contemporâneo. A primeira dessas situações se refere ao aumento do número de crianças indígenas em situação de acolhimento institucional entre os povos Kaiowá e Guarani. Eu soube disso a partir de uma reportagem da Tatiane Klein, do Intercept Brasil, de julho de 2018: ‘Esquece seu filho’: o Brasil está tirando crianças indígenas de suas mães e colocando para adoção. Recomendo fortemente que façam essa leitura, para dimensão dos fatos. A outra situação me ocorreu quase por acaso. Tenho pesquisado sobre Goiás, a história, a pré-história, a geografia, a biodiversidade da região e também os povos que a habitam e habitavam. Até que me vi particularmente interessada pelos Avá-Canoeiro, que vivem em dois grupos muito pequenos, remanescentes de uma sucessão de massacres. Há um documentário da TV Brasil que, apesar do título um tanto equivocado, apresenta bem a situação: Tribo avá-canoeiro, a história de um “povo invisível” nas matas do país (2012). Também consultei alguns estudos, como a tese da Dra. Mônica Veloso Borges, defendida no Instituto de Estudos da Linguagem na Unicamp: Aspectos Fonológicos e Morfossintáticos da Língua Avá-Canoeiro (Tupi-Guarani). E, principalmente, recorri à tese do Dr. Christian Teófilo da Silva, defendida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília: Cativando Maira — a sobrevivência avá-canoeiro no Alto Tocantins. …


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Matxa: Iawi fez a minha barriga crescer e a vida se movimenta fazendo cócegas cá dentro, abaixo do umbigo. É difícil acreditar que existe uma pessoa, um avá dentro de mim, e que ele andará pelo mundo e realizará grandes feitos. É difícil acreditar, mas não existe nada mais concreto. Estou tão pesada que minha rede parece fina, não oferece o mesmo conforto. Penso que engoli a Lua e que ela sairá de mim iluminando a mata e acordando os pássaros antes do amanhecer. Será uma madrugada memorável, nascerá enfim um txigapitxega, meu parente, gente do meu tipo. Nakwátxa, com a fumaça do cachimbo, invocará os espíritos de proteção. Quero que seja menino, porque só temos Iawi, que é forte, mas apenas um. Quero que seja menino e bom de caça, que traga carnes gordas, que seja generoso e faça pontas de flecha afiadas com o ferro que encontrarmos nas terras dos maíra. …

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Paulliny Tort

As coisas que eu queria mostrar pra você

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